Você é intolerante a quê?











Eu conheço muita gente com intolerância à lactose. Para quem não sabe, é a incapacidade de digerir o açúcar presente no leite. Mas, ultimamente, tenho encontrado pessoas com outros tipos de intolerância. Intolerância a projetos, a ideias, a mudanças e, principalmente, ao contraditório.

Basta alguém apresentar uma proposta nova e pronto. Antes mesmo de entender do que se trata, já existe uma opinião formada, um julgamento pronto e, muitas vezes, uma sentença definitiva.

Se surge um projeto de Nova Centralidade, aparece quem tenha certeza absoluta de que vão destruir a cidade. Se a Prefeitura anuncia uma revitalização da Rua Coberta, alguém afirma que todo o recurso deveria ir para a saúde. Se revitalização for uma parceria público-privada, sem utilização de recursos públicos, aparece quem diga que estão vendendo Gramado. E se alguém ousa discordar dos dois lados, imediatamente recebe um novo rótulo: “isentão”.

Vivemos uma curiosa epidemia de intolerância. Não à lactose. À complexidade.

Porque quase nada na vida pública é simples. Talvez esse tenha sido um dos maiores aprendizados que a política me proporcionou. Governar uma cidade é viver todos os dias fora da zona de conforto. Hoje alguém te agradece pelo trabalho realizado. Amanhã a mesma pessoa pode estar profundamente decepcionada com uma decisão tomada. Hoje você recebe elogios. Amanhã recebe críticas. E está tudo bem. Faz parte da vida pública.

O que me preocupa não é a crítica. Pelo contrário. Uma cidade sem crítica corre o risco de se acomodar. O que me preocupa é a superficialidade. É a velocidade com que julgamos assuntos que sequer dedicamos alguns minutos para compreender.

Vivemos a era da informação. Nunca foi tão fácil acessar estudos, documentos, projetos e dados. Mas também nunca foi tão fácil formar convicções instantâneas. Muitas vezes, lemos apenas o título. Outras vezes nem isso. Alguém interpreta por nós, alguém resume por nós e, quando percebemos, estamos defendendo opiniões que sequer paramos para analisar.

Antes que alguém pense que estou falando apenas dos críticos do governo, fique tranquilo. Existe intolerância em todos os lados. Existe intolerância em quem rejeita qualquer mudança e existe intolerância em quem trata qualquer crítica como perseguição. Existe intolerância em quem acredita que possui todas as respostas e também em quem não admite ouvir uma resposta diferente daquela que gostaria de receber.

A intolerância não escolhe partido, não escolhe ideologia e não escolhe lado. Ela simplesmente impede o diálogo.

E sem diálogo não existe evolução.

Você se lembra de quando a Rua Torta era apenas uma rua? Lembra da polêmica? Você se lembra de quando fecharam parte da Madre Verônica para criar a Rua Coberta? Lembra da polêmica? Hoje essas discussões parecem quase engraçadas, mas eram muito reais na época. Assim como tantas outras transformações que ajudaram a construir a Gramado que conhecemos hoje.

Isso significa que toda mudança é boa? Claro que não.

Significa que toda crítica está errada? Também não.

Significa apenas que cidades vivas estão em constante transformação e que crescer exige coragem. Coragem para propor, coragem para discordar, coragem para ouvir e, principalmente, coragem para admitir que ninguém possui todas as respostas.

Gramado não é perfeita. Nunca foi. Ainda temos muitos desafios pela frente e precisamos melhorar em diversas áreas. Mas uma coisa eu aprendi observando quem construiu essa cidade antes de nós: os melhores resultados nunca nasceram da unanimidade. Eles nasceram da capacidade de conversar, de ajustar rotas, de corrigir erros e de seguir em frente sem transformar cada divergência em uma guerra.

Por isso, da próxima vez que surgir uma ideia nova, uma obra, um projeto ou uma mudança que lhe incomode, faça um exercício simples. Antes de atacar, antes de compartilhar, antes de julgar, tente entender. Pergunte. Leia. Ouça. Converse.

Porque intolerância à lactose a gente respeita.

Mas intolerância ao diálogo talvez seja um dos maiores problemas do nosso tempo.

E me conta: você é intolerante a quê?