Um mundo dentro de Gramado











Essa semana Gramado perdeu o seu Heino Höppner, um dos homens por trás da criação daquele que talvez tenha sido nosso primeiro grande parque temático, o Mini Mundo.

Meu contato com ele sempre foi muito mais de observação do que de palavras, embora nossas famílias fossem próximas. Seu Heino tinha uma personalidade difícil de passar despercebida. Talvez pela imprevisibilidade, talvez pela sua franqueza ímpar, aquela capacidade de dizer exatamente o que pensava, qualidade cada vez mais rara em tempos onde seguidamente calculamos o que dizer.

Quando lembro dele, algumas cenas antigas de Gramado aparecem quase como fotografias.

Lembro do seu Heino escorado no balcão da barraca do Orbis, conversando, enquanto meus pais fritavam pastel e atendiam quem chegava para assistir ao Natal Luz no lago do antigo Parque Hotel, o nosso Joaquina Rita Bier.

E lembro também de quando, guris, pulávamos a cerca dos fundos do Tênis Clube para tomar banho de piscina. Parte da aventura era o medo de que seu Heino descobrisse e soltasse os pastores-alemães que protegiam a propriedade vizinha.

Não sei nem se ele faria isso, mas nós tínhamos certeza que faria.

Muitas outras histórias eu tenho o privilégio de escutar. Uma delas conta que seu Heino ajudou muito o Sr. Otto na construção do hotel. E quando digo ajudou, era fazendo massa, carregando pedra, tijolo, colocando a mão na obra.

Talvez por isso ouvi alguém chamá-lo nesses dias de construtor de sonhos.

Achei perfeito.

Porque foi exatamente isso que ele ajudou a fazer.

Construiu o sonho de colocar um mundo inteiro dentro de Gramado.

E fez isso em miniatura.

Quem entra no Mini Mundo vê prédios, castelos, trens, ruas e personagens. Mas quem olha com atenção percebe algo ainda maior: o cuidado quase obsessivo com os detalhes. Existe história, pesquisa, cultura, humor e pequenas surpresas em todos os cantos.

É um daqueles lugares de onde você deveria sair sabendo alguma coisa que não sabia quando entrou.

Ou, como talvez o próprio seu Heino poderia dizer, um pouco menos burro do que chegou.

E essa história também ajuda a explicar Gramado.

Muito antes de falarmos em “experiência turística” ou “economia criativa”, havia gente por aqui simplesmente fazendo, sonhando, construindo.

Carregando pedras e criando coisas que ninguém tinha feito antes.

Gramado se tornou a cidade que é porque muita gente teve coragem de imaginar coisas que pareciam grandes demais para uma cidade tão pequena.

Temos tantas criações em Gramado.

Seu Heino e sua família ajudaram a construíram um mundo.

Agora ele parte, mas amanhã uma criança vai entrar no Mini Mundo pela primeira vez, se abaixar para enxergar algum detalhe, acompanhar um trenzinho ou perguntar sobre um castelo.

Talvez ela nem saiba quem foi Heino Höppner.

Mas estará caminhando dentro de um sonho que ele ajudou a construir.

Talvez seja essa uma das formas mais bonitas de permanecer.

Obrigado, seu Heino.

Pelas histórias, pela autenticidade e por ajudar Gramado a aprender que não importa o tamanho da cidade quando existe coragem para sonhar grande.

E, principalmente, obrigado por realizar um sonho improvável:

colocar um mundo inteiro dentro de Gramado.