Tu é filho de quem?











Que Gramado é uma pequena grande cidade todo mundo sabe, mas esses dias eu e a Karen estávamos conversando sobre uma coisa aparentemente simples: quando vamos deixar nossos filhos irem a pé para a escola?

Isso é uma situação, ou melhor, um grande passo para qualquer pai e qualquer filho. O cordão umbilical começa a esticar, a busca dos pequenos por liberdade aparece e, junto com ela, aquela autonomia que sabemos que precisamos dar, mesmo quando uma parte da gente gostaria de segurá-los pela mão por mais alguns anos.

Mas a cidade já não é exatamente como na nossa época.

Quando éramos pequenos, passávamos o dia fora e existia praticamente uma regra universal: voltar para casa quando as luzes dos postes acendessem. Não tinha localização em tempo real, celular, mensagem avisando onde estávamos a cada meia hora.

E não digo isso porque considero Gramado uma cidade insegura. Muito pelo contrário. Mas basta acompanhar as notícias e ver tanta maldade acontecendo pelo mundo para aquela pergunta aparecer na cabeça de qualquer pai:

Quando é a hora certa de soltar?

Gramado também cresceu muito. Todos os dias conhecemos pessoas novas, recebemos novas famílias, novos moradores, novos sotaques e novas histórias. Isso é parte da cidade que nos tornamos.

Só que, quando eu era pequeno, havia uma espécie de sistema de segurança que não precisava de câmera, aplicativo ou senha.

Quando eu chegava em casa com um amigo novo, uma das primeiras perguntas do meu pai era:

“Tu é filho de quem?”

Na época parecia apenas curiosidade de pai.

Hoje eu entendo.

Ele queria saber com quem eu estava andando, claro. Mas queria saber também de onde aquele guri vinha, quem era sua família, onde morava, quem eram seus pais.

E existia o outro lado disso.

Se eu estivesse fazendo alguma coisa errada do outro lado da cidade, havia uma possibilidade bastante razoável de meu pai ficar sabendo antes de eu chegar em casa.

Quem viveu Gramado naquela época sabe exatamente do que estou falando.

Era uma cidade em que muita gente conhecia muita gente.

E talvez isso produzisse algo que hoje percebo que vale muito:

a sensação de que existiam muitos olhos cuidando dos nossos filhos.

Eu sinto isso hoje dentro do CTG.

Quando José e Catarina estão lá, existe uma tranquilidade diferente. Eles circulam, brincam, encontram amigos, convivem com crianças maiores, menores, adultos e idosos.

E em algum momento você percebe uma coisa bonita acontecendo.

Não sou apenas eu cuidando dos meus filhos.

Tem sempre alguém olhando. Uma mãe percebe. Um pai chama a atenção. Um patrão, uma prenda, um amigo ajuda. Se uma criança cai, alguém levanta. Se está fazendo alguma coisa que não deveria, provavelmente alguém vai corrigir.

E ninguém pergunta primeiro:

“Esse filho é de quem?”

Cuida.

Depois descobre.

Talvez seja exatamente esse o sentimento que eu e a Karen estamos procurando quando pensamos no dia em que nossos filhos vão colocar a mochila nas costas e dizer:

“Pai, eu vou sozinho.”

Não queremos impedir que eles conquistem o mundo. Pelo contrário. Criamos filhos justamente para que, aos poucos, eles não precisem mais da nossa mão para atravessar cada rua.

O desafio é saber que tipo de cidade estará do outro lado dessa porta quando eles saírem.

Gramado não vai voltar a ter o tamanho que tinha quando éramos crianças. E nem precisa. Crescer trouxe oportunidades, pessoas, culturas e histórias que hoje também fazem parte de nós.

Mas crescer não pode significar deixar de ser comunidade.

Talvez precisemos reaprender a olhar para a criança que atravessa a rua como alguém que também merece nosso cuidado. Conhecer o vizinho novo. Saber quem mora ao lado. Cumprimentar quem chegou. Perceber quando alguma coisa está errada. Parar de pensar que aquilo que acontece depois do nosso portão não é problema nosso.

Porque segurança também se constrói assim.

Com polícia, iluminação, câmeras, ruas seguras e políticas públicas, claro.

Mas também com pertencimento.

Talvez nossos filhos nunca tenham a mesma infância que tivemos. Talvez nunca voltem para casa guiados pelas luzes dos postes.

Tudo bem.

Mas eu gostaria muito que eles ainda pudessem crescer em uma Gramado onde, ao encontrarem alguém pelo caminho, escutassem aquela velha pergunta:

“Tu é filho de quem?”

Não para descobrir apenas quem são seus pais.

Mas para lembrar que, numa comunidade de verdade, todo filho é um pouquinho filho de todos nós.