Investir no turismo ou no bairro?











Umas das frases que mais ouço em Canela, principalmente quando surge qualquer anúncio de melhoria na área central da cidade, é: “A Prefeitura só investe no centro, nos bairros não”, ou “turismo não é tudo”. Isso, claro, não é de agora, mas ganhou força nos últimos dias com a notícia de que o Centro de Feiras receberá valores de peso para sua revitalização.

Esses dias li um livro sobre um trabalho desenvolvido em Canela no final dos anos 80 quando definiu-se caminhos para alavancar o turismo e adotá-lo como vocação. Se lembrarmos, neste período a cidade não havia encontrado por completo seu caminho, já que com o fim do ciclo madeireiro alguns anos antes, o município vivia incertezas sobre seu rumo.

Havia uma tradição cultural muito rica, bem como uma natureza ímpar, que, naturalmente, contribuíram para o processo de formação de um dos mais importantes destinos turísticos do Brasil.

De lá para cá muita coisa mudou. Seja em relação ao turismo que passa de menos de uma dezena de atrações para centenas de opções muito qualificadas, mas também na sociedade em si. Canela não é mais uma cidadezinha pequena do interior. Somos uma das maiores da região e enfrentamos problemas sociais gravíssimos que na opinião de muitos, inclusive a minha, se deu e se dá pela total falta de planejamento urbano.

Todo destino turístico de sucesso possui não só atrativos de qualidade capazes de atrair um grande número de pessoas para conhecê-los, mas se a intenção for se sustentar ao longo dos anos, deve proporcionar, no mínimo, qualidade de vida para quem faz o turismo, que é a comunidade local.

Portanto, a afirmação de que o investimento público não deve se concentrar somente na área central é sim uma verdade, entretanto, quando se depende de 80% de um único setor para a economia inteira de um município girar, o investimento em ferramentas que potencializam a vinda de visitantes para cá é vital.

Mas o que não é verdade é que Canela despende mais recursos para o turismo do que para sua população. O orçamento da secretaria de Turismo e Cultura é um dos mais baixos e limitados entre todas as pastas. O investimento no Centro de Feiras, por exemplo, advém de recursos federais, onde nem um centavo sairá do orçamento municipal.

E mesmo que fosse através de recursos próprios, um equipamento como aquele pode trazer ganhos imensuráveis para toda a economia local. Crime não é investir recurso público em ativos para potencializar a cidade, crime é abandonar, fechar ativos e depois de sucateados vendê-los por uns trocados. Não pode haver política mais suja do que isso.

Para completar o dilema, temos em média 350 novos cartões SUS por mês em Canela. Desses, nem mesmo 50 correspondem a nascimentos, o restante são migrações de outros municípios. E diante desse cenário, como esperar que o atendimento de serviços públicos não entrem em colapso?

Se já não entraram, devem entrar em breve. Não existe milagre, nenhum município é capaz de absorver uma demanda desse porte. Canela investe do orçamento mais do que o obrigatório (que já é uma porcentagem considerável) em saúde e mesmo assim tem dificuldades tremendas. E não teria como ser diferente, a falta de planejamento, irresponsavelmente relegada por governos que aqui passaram, cobram hoje um preço alto.

Se hoje começarmos a fazer um trabalho sério de controle e fiscalização sobre habitação, talvez em 10 ou 15 anos tenhamos algum resultado. Não se trata de medidas rasas, eleitoreiras ou que em 2 ou 3 anos tragam resultados que ajudarão Canela a ter um cenário diferente.

Por isso, posso afirmar, e todos aqueles que lerem o orçamento municipal no portal da transparência verão, que em turísmo quase nada é investido em Canela. O centro recebe o mínimo do mínimo para uma área central de uma cidade com o porte de Canela, uma cidade que vive quase exclusivamente do turismo.

A falta de investimento nos bairros não se deve, portanto, ao uso dos recursos em outros lugares. A falta se dá justamente porque não sobram recursos. Tudo o que se tem é destinado a atender da melhor forma possível a comunidade local, mas que por suas dramáticas características, deixa a desejar.

Lamentavelmente hoje temos duas cidades de Canela. A Canela turística e a Canela de quem faz o turismo. Essa última, mesmo desconhecida por muitos, é a triste realidade de uma situação que se arrasta por pelo menos 20 anos e que, se não enfrentada, vai agravar ainda mais o que já não se sustenta mais.