Gata Preta











para Brendha e Jordhana, ninas de uma outra história

eu acredito na poesia
eu acredito piamente em poemas

pois a noite era fria
e a cidade
ora
estava em um silêncio mortal
o que dizer de ruas tão vazias?
“tome cuidado, tome cuidado”

é verdade que acabei
adentrando muito
naquele bairro que
tinha umas ruas escuras
e pra piorar baixou
uma cerração ferrada

foi então que uma pessoa
veio correndo em minha direção
é claro que corri também
tentando fazer um ziguezague despistante
pelos quarteirões tortos
comuns em qualquer cidade
cheia de morros
ou serrana, como algum
morador antigo certa-
mente iria me corrigir

a questão é que eu me perdi
entende?
e feio
entrei em uma rua que só
percebi que não tinha
saída quando me deparei
com a última casa, uma
daquelas que não tem
portão, com um monte de
tralha no quintal, não
só jogada pelo chão,
mas também pendurada
nas árvores e na varanda
acusando uma mente
insondável

qualquer, mas qualquer
coisa poderia sair de lá
ou lá se esconder
se aquela pessoa viesse
atrás de mim, eu poderia
me esconder ali

mas, pera aí, pensei
esse quintal é mais
perigoso que uma pessoa
que provavelmente não
tinha me visto antes de
correr – droga!

coisas estranhas…
olhei para a lua que estava
daquele jeito deformado
entre a cheia e a minguante
quando um grito me petrificou:

“NINA VOLTA JÁ PRA DENTRO”

em seguida um vulto
preto passou correndo
perto de mim e endureceu
cada parte do meu corpo.
era um gato, ou melhor,
uma gata preta

meu, juro que quase tive
um ataque cardíaco

dali foi uma só sequência
de luzes se acendendo
famílias saindo à porta
cochichos e caras incomodadas

segui voltando, né, sob
o manto da injúria
antes que o vizinho à
direita realmente
ligasse pra polícia

afinal, quem entenderia
minhas razões poéticas?
quem entenderia a necessidade
de compor um acervo de
realidades? afinal, quem
aceitaria que sou um
animal também, uivando
por liberdade?

só encontrei refúgio
na Nina, a gata preta
cúmplice desse crime vulgar

mas ainda não acabou
porque há de surgir o
último dos Brutus sob a
luz da sinuca para me
dizer que isto não é um
poema

ah! eis o golpe de mágica:

você acha que o narrar se
opõe ao gênero “poema”, porém
assim como o borrão traduz
além de uma forma o movimento
eu pinto este quadro
como bem entendo