Eu estou pagando portanto a responsabilidade não é minha











Até que ponto a terceirização de responsabilidade é válida entre munícipe e poder público?

Em qualquer discussão política há sempre os que defendem a menor interferência possível do Estado na vida do contribuinte e também os que acreditam que ao pagarem seus impostos a responsabilidade pela gestão de quase tudo é do governo.

Há, claro, as responsabilidades definidas por lei que definem o que é de competência da União, dos estados e dos municípios, mas aqui quero focar na dinâmica dos municípios, mais precisamente na de Canela.

Recentemente tive uma boa conversa com o Secretário de Meio Ambiente, Carlos Frozi, em relação ao recolhimento de lixo na cidade. Tema que, aliás, tem rendido muitas reclamações, demandas e dúvidas por parte da comunidade. E não podia ser diferente, o modelo proposto pela secretaria quebra uma postura adotada pelo município nos últimos anos. Além disso, a adaptação da nova empresa e um novo roteiro causaram bastante transtornos de maneira geral.

Mas como toda mudança gera desconforto, acho válido tentar entender o que a motiva e porque ela tem sido tão doída por tantos e, antes de mais nada, preciso dizer que mesmo com problemas de recolhimento, logística e alguns acertos a serem feitos que certamente serão resolvidos com o passar do tempo, uma mudança é de extrema necessidade em Canela.

Digo isso porque no início dos anos 2000 Canela era referência nacional na separação, reciclagem e trato do lixo, aproveitando quase que a totalidade dos resíduos recolhidos. Campanhas nas escolas e, claro, a vital participação comunitária garantiram algo que era até pouquíssimo falado no Brasil.

Passam-se os anos e em 2023, Canela passa a aproveitar menos de 5% dos resíduos. O trabalho quase que pioneiro, motivo de orgulho, perde-se completamente. Uma comunidade que outrora fazia a separação de maneira natural e espontânea, acaba em partes perdendo o costume.

Mas com a recente intervenção na Central de Triagem e a criação da cooperativa de catadores, se passa de 5% para mais de 35% de aproveitamento em algo em torno de dois anos! O motivo é mais óbvio do que parece: política pública.

Decisões políticas podem trazer consequências positivas ou nocivas. Algumas muito nocivas.

Na tentativa de recuperar não só indicadores favoráveis ao meio ambiente, como também na redução astronômica de gasto de dinheiro público, algumas dificuldades acabaram surgindo.

A principal acredito ser uma parte da comunidade com o tempo acostumada com o fato de não precisar separar e o caminhão levar mesmo assim. Outra parte deixou de fazer a separação porque perdeu a fé com a prefeitura, já que mesmo separando a empresa recolhia o resíduo de maneira misturada.

Anos de negligência colocaram anos de avanço no lixo, metaforicamente falando. Mas o objetivo atual é recuperar altos níveis de aproveitamento dos resíduos e isso, não há outra forma, depende diretamente da participação comunitária.

Nesse ponto, tenho ouvido muito a seguinte frase: “Pago a taxa de coleta de lixo, a responsabilidade é da Prefeitura”. De certo modo até é verdade, mas em todo e qualquer lugar desenvolvido desse mundo mesmo pagando por esse serviço público, uma parte da responsabilidade continua sendo do gerador. E não existe forma diferente.

Pode ser que algumas pessoas não compreendam, não querem compreender, ou simplesmente não acreditam que o trato incorreto de resíduos causa um gigantesco impacto ambiental. Mas ainda há outro fator a ser considerado, o impacto financeiro.

Canela gasta mais de dez milhões de reais anualmente para coletar, separar e enviar para o aterro sanitário as milhares de toneladas de lixo produzidos em nossa cidade. Isto é literalmente colocar recurso público no lixo.

A participação da comunidade pode ser responsável por abreviar tempo e fazer não só Canela economizar recursos, como também, gerar riqueza através de algo que até tão pouco tempo só gerava despesa.

Nesse aspecto não dá para terceirizar responsabilidade. Ela é tão parte do poder público quanto do canelense e temos exemplos muito claros de que não funciona quando um dos lados abre mão de seu papel.