A história de Canela é um reflexão necessária











Há cem anos, Canela foi elevada a 6º Distrito de Taquara. Um passo decisivo para dezoito anos mais tarde, em 28 de dezembro de 1944, conseguir a emancipação e tornar-se o Município de Canela.

Décadas depois, em um mundo onde as pessoas parecem se preocupar com o que há da porta de suas casas para dentro, esquecendo ou, pelo menos, não cultivando valores de coletividade, relembrar a nossa história me parece ser decisivo para termos um panorama de sociedade um pouco diferente. Até porque, os grandes passos que a cidade deu se devem não a um ou duas, mas a muitas mãos.

E um centenário parece ser, ao meu ver, uma boa oportunidade para uma reflexão. Uma reflexão que nos leve a pensar sobre o que nos tornamos e se somos hoje a nossa melhor versão enquanto comunidade canelense.

A determinação, força e sacrifício de algumas pessoas permitiram que um pequeno povoado fosse em muito pouco tempo reconhecido mundialmente como um lugar de grandes diferenciais. Canela é o é que hoje devido a visão de pessoas que atualmente são referenciadas em nomes de ruas ou de escolas do município.

Mas nomes de ruas e de escolas passam, acredito eu, despercebidos e possivelmente uma considerável parcela dos canelenses não faça a devida relação com a importância que esses cidadãos desempenharam para termos o que hoje nos é muito caro.

Para se ter uma ideia, dificilmente é possível, quantitativamente falando, estimar o impacto no desenvolvimento de Canela que o trem, obra de vida de nosso fundador João Corrêa, trouxe para o município. Mesmo assim, há dois anos atrás, o centenário da primeira chegada do trem à estação de Canela passou em branco e também despercebido, como se fosse somente mais um episódio da história canelense.

Trago isso com tristeza porque como pode uma comunidade valorizar a sua cidade e se sentir pertencida a ela se nem ao menos conhece sua história e conhece os sacrifícios de vida de quem se dedicou para que nos tornássemos o que hoje somos?

Canela não tem um museu, nem mesmo um lugar que retrate, reúna ou conte a nossa história. Ter um espaço assim não é um capricho, é uma necessidade vital se quisermos que a comunidade local se engaje com sua cidade.

Indo mais além, não só negligenciamos nossa história, como também permitimos que praticamente todos os prédios históricos e públicos estejam ou fechados ou abandonados. Pode parecer inofensivo e retrato da falta de visão de alguns governantes, mas é muito mais.

Como se pode esperar que uma criança cuide da pracinha em que brinca, da escola em que estuda ou da cidade em que vive, se quem tem a obrigação legal de zelar por seu patrimônio e prover o exemplo os negligencia de tal forma?

Por sorte e luxo ainda temos verdadeiros guardiões da memória de Canela. Fico pensando se não fosse o Memorial e todos seus membros, Olmiro dos Reis, Pedro Oliveira, Marcelo Veeck, Márcio Cavalli, entre tantos outros, quem reuniria documentos, fatos e garantiria que a história não se perdesse?

Preservar, conhecer e reconhecer o papel da história de Canela para a sociedade da atualidade é vital. Hoje completamos cem anos, mas completaremos duzentos, trezentos anos. Quando esse dia chegar espero que o sentimento de pertencimento seja maior, a autoestima do canelense maior e que a consequência natural disso se traduza em uma cidade única, aquela tão sonhada por quem por aqui já passou e que tanto deixou.