A culpa é nossa











“Eu cansei de separar o lixo lá em casa, porque quando chega o caminhão eles jogam e misturam tudo.”
Quantas vezes você já ouviu ou até pensou isso?

Será mesmo verdade?
Ou será que mais do que reclamar, precisamos olhar para o problema com honestidade?

Todos os países enfrentam a chamada “guerra dos resíduos”. Não existe mágica. Mesmo nações desenvolvidas já passaram por estágios difíceis nessa pauta e hoje colhem resultados que revelam um aprendizado coletivo. Países como Eslovênia, Alemanha e Áustria lideram no mundo em taxas de reciclagem bem acima de 50% , fruto de políticas públicas robustas, infraestrutura adequada e engajamento social real. 

A Suécia, por exemplo, recicla ou transforma praticamente tudo em energia e, por isso, muitas vezes precisa importar lixo de outros países para manter suas usinas funcionando. Isso nos mostra que a transformação é possível, mesmo diante de desafios antigos e complexos.

Então por que nós ainda não conseguimos?

Não é apenas uma questão de caminhões ou coleta municipal. É uma questão de cultura, consciência e compromisso coletivo.

Aqui em Gramado, em uma das últimas tribunas do povo de 2025, um cidadão fez uma observação que ecoou: “Estamos perdendo uma grande oportunidade de aproveitar os resíduos que produzimos.”

Ele tem razão.

Segundo dados da Secretaria de Obras, responsável pelo serviço, nossa cidade recolhe em média aproximadamente 50 toneladas de resíduos seletivos e 100 toneladas de resíduos orgânicos por dia. Isso é muito lixo. Ou melhor: é muito dinheiro sendo jogado fora se deixarmos de aproveitar o material que poderia ter uso, emprego e renda.

Já vejo, inclusive, ótimas iniciativas na Câmara sobre esse tema através da Comissão de Sustentabilidade. Já temos uma startup selecionada pela prefeitura para iniciar um projeto piloto de recolhimento com remuneração, uma sinalização clara de inteligência pública e econômica combinada.

Mas o mais impactante, para mim, não foi isso. Foi a minha vizinha, dona Noeli.
Todos os dias ela percorre a rua da minha casa, lixeira por lixeira, e recolhe tudo o que pode ser reciclado.
Ninguém pediu para ela.
Ninguém obrigou.
Ela simplesmente fez e continua fazendo.

E aí está a pergunta que precisamos fazer a nós mesmos:
por que nós não fazemos igual?

O lixo é responsabilidade nossa.
Quem produz o lixo somos nós.
Quem separa somos nós.
Quem desperdiça ou reutiliza somos nós.

A mudança cultural não vem do caminhão que passa na rua, nem da lei que se cria na prefeitura.
A mudança cultural começa dentro de casa, no nosso balcão de cozinha, na nossa consciência diária.

Como vimos em países que hoje são referência mundial, onde até a educação sobre lixo começa nas escolas e comunidades. É a ação de cada pessoa, somada à ação pública, que faz a diferença real. 

Em Gramado, temos condição, criatividade e história para isso.
Temos iniciativa, como essa startup que está começando e temos exemplos de cidadania que valem ouro, como a dona Noeli.

Mas além disso, temos que entender que a transformação ambiental também é transformação econômica e social.
Quando tratamos o lixo como problema, apenas vemos sujeira.
Quando tratamos o lixo como recurso, vemos oportunidade de trabalho, inovação e futuro sustentável.

A culpa é nossa sim!
Mas a responsabilidade e a capacidade de mudar também são nossas.

Se queremos uma Gramado mais limpa, mais justa, mais sustentável e mais humana, precisamos agora, e juntos, transformar o que produzimos, reciclamos e reutilizamos.

Porque no final das contas, cidade boa não é aquela que menos tem lixo.
É aquela que consegue valorizar cada resíduo como parte do nosso jeito de viver e cuidar uns dos outros.