“A alimentação não é apenas uma necessidade, mas um pretexto para o encontro de almas”, descreve Simone Nejar











Apaixonada por Gramado, Simone Janson Nejar é natural de Porto Alegre, mas por influência dos pais Luiz Paulo Verzoni Nejar e Miriam Janson Nejar passou a querer residir na cidade das hortênsias. Mãe de Giovanni Nejar Bocchi, 27 anos, e Günter Nejar Keller, 18 anos, Simone é formada em Ciências Jurídicas e Sociais pela PUC RS desde 1998 e especializada em Direito Imobiliário. Além de mãe e advogada, Simone é uma cozinheira de mão cheia, adora a gastronomia e tudo que gira em torno do mundo gastronômico. Com 49 anos, ela relata que tem o sonho de ter uma velhice feliz, rodeada de netos na cozinha, preparando doces. Conheça Simone Nejar, a proprietária da “Confeitaria Zuckerhaus, Sabores Europeus”, que está com estande no 11º Festival de Cultura e Gastronomia de Gramado até o dia 22 de setembro.

GN – Por que veio morar em Gramado?

Simone – Por paixão à cidade, desenvolvida desde a mais tenra infância por influência dos pais; era veranista, amava vir todos os fins de semana e férias, e odiava ir embora; por achar Gramado a cidade mais encantadora do mundo; por detestar os prédios cinzentos e a violência de Porto Alegre; por precisar de uma casa com pátio para plantar temperos.

GN – O que mais gosta de fazer?

Simone – Ler muito (meus favoritos são Kafka e Dostoievski), cozinhar, criar pratos, escolher temperos e comprar panelas. Também adoro ficar em casa com a família e os meus três dachshunds, Fritz, Hans e Frida. Adoro cozinhar para os amigos.

GN – Uma realização?

Simone – Meus filhos, que são o melhor de mim, e, felizmente, homens de bem, criados com valores cristãos. O lançamento do meu livro “Entre Palavras e Panelas” também me deixou muito feliz.

GN – Quando se descobriu uma amante da gastronomia?

Simone – Aos quatro anos de idade, quando ganhei uma batedeira que funcionava à pilha da minha avó materna, e descobri o prazer de fazer o meu primeiro bolo (mistura pronta da Santista, de limão), que a mãe assou para mim. Nunca mais saí da cozinha. Minha família tem tradição culinária.

GN – Há quantos anos está na área da gastronomia?

Simone – Se considerarmos que fiz meu primeiro bolo aos quatro anos, tenho 45 de prática… risos. Na verdade dizem que eu tenho “a mão” para a Gastronomia, mas eu tenho tanto amor pelo que faço, que é difícil sair errado. Acho que Deus abençoa tudo o que é feito com amor. Meu primeiro prato, como já referi, foi um bolo de caixinha de limão. Nunca mais abandonei a cozinha. A advocacia pode ter seus encantos para mim (sou formada em Direito e exerço há 21 anos) mas a Gastronomia, esta é o primeiro amor, inesquecível e perene.

GN – O que tu gostas de cozinhar?

Simone – A pergunta é difícil, pois eu amo cozinhar, mas vamos dizer que alguns pratos em especial, comida italiana em geral (massas caseiras, risotos) e doces, muitos doces. Gosto de realizar os sonhos de infância das pessoas, cozinhar aquilo que deixou saudade no coração e na alma.

GN – O que te encanta na gastronomia?

Simone – A possibilidade de arrancar sorrisos das pessoas usando uns poucos ingredientes e muito carinho, sem dúvida. A comida tem que nutrir o corpo e a alma, tem que unir as pessoas em volta da mesa. A alimentação não é apenas uma necessidade, mas um pretexto para o encontro de almas. Não foi à-toa que Jesus reuniu-se com os Apóstolos para a Última Ceia.

GN – Há quantos meses existe a Zuckerhaus e por que uma confeitaria de doces europeus em Gramado?

Simone – A loja física da Zuckerhaus foi inaugurada no dia 14 de junho, mas formalmente ela foi criada em fevereiro deste ano, para participar da Feito em Gramado. A ideia de fazer doces europeus aqui surgiu do próprio clichê em torno da nossa cidade, de ser a cidade mais europeia do Brasil. A conclusão que eu tirei disso foi até meio óbvia, pois como uma cidade que se pretenda europeia, famosa por seus chocolates, não tem doces europeus? Será correto oferecer aos turistas o lugar-comum, sempre os mesmos doces e salgados, sempre o brigadeiro, sempre a Marta Rocha, sempre a mistura de Nutella e leite em pó? Como pode uma cidade que vive do turismo ser tão repetitiva em sua confeitaria? Através desta constatação que eu decidi usar o meu conhecimento e a minha experiência em viagens à Europa para fazer a diferença aqui. Minha meta é melhorar o nível da nossa gastronomia.

GN – O que representa para ti participar do Festival de Cultura e Gastronomia?

Simone – Esta participação representa a oportunidade de mostrar ao turista que aqui não temos apenas chocolate, Gramado tem muito mais que chocolate a oferecer. Acredito que a Gastronomia daqui precisa dar um salto de qualidade, é preciso sair da zona de conforto e oferecer ao nosso turista produtos diferenciados. Estou muito feliz em participar deste Festival, e que venham os próximos.

GN – Qual a tua expectativa para o Festival?

Simone – Espero colher muitos sorrisos na Rua Pedro Benetti, preparando o melhor doce que puder dentro da temática escolhida, neste ano, homenageando o Chile.

GN – Conta para a gente o porquê da escolha do mil folhas e como ele é preparado?

Simone – A confeitaria chilena usa muito o doce de leite, além dos folhados, então eu procurei harmonizar estes ingredientes acrescentando também as nozes chilenas, que combinam com o doce de leite. Escolhi os melhores ingredientes que pude, a começar pelo doce de leite mais premiado do Brasil, que vem de Minas Gerais. Além disso, quem saborear o meu mil-folhas será presenteado com um belo prato de barro, feito artesanalmente e com a impressão de um desenho feito pelo meu filho Giovanni. Ficou muito bonito. Além da lembrança do sabor do doce, portanto, sobrará o prato como souvenir.


Mil Folhas com doce de leite Viçosa e nozes chilenas, comercializado no Festival. Foto: Laura Silveira.

GN – Quem é Simone Nejar?

Simone – Se eu olhar no espelho, verei uma senhora próxima dos cinquenta anos, algumas poucas rugas riscando seu rosto, alguns fios brancos disfarçados com tinta, talvez um pouco cansada, talvez ainda um pouco bonita, mas, se eu olhar para dentro, com certeza, verei uma menina correndo, feliz, contente, agradecida a Deus pela vida que tem hoje, rodeada de seus filhos, amigos, cachorros, e, sem nunca esquecer, suas panelas e livros. Ainda sou essa menina, ela sorri dentro de mim e costuma zombar da imagem do espelho.

GN – Uma frase que defina tua paixão pela gastronomia.

Simone – Uma comida sem tempero é como uma vida sem amor.