Tu conhece o dia de São Pega?











Quando eu era adolescente, existia uma frase que meu pai repetia praticamente todos os domingos à noite:

“Amanhã é dia de São Pega!”

Eu, naturalmente, queria aproveitar o domingo até o último segundo. Principalmente para assistir ao Sai de Baixo, aquela confusão de uma família completamente atrapalhada, com um loiro alto metido a granfino, casado com uma bonitona não muito inteligente, um zelador enrolado com a empregada, uma viúva vivendo de aparências e o pobre Vavá inventando empresas para tentar sustentar aquela turma toda.

Aliás, olhando hoje, que retrato do Brasil era aquele? Será que mudou tanta coisa assim?

Eu nunca fui muito de gostar de cidade grande, mas confesso que tinha uma curiosidade enorme de conhecer o tal Largo do Arouche. A televisão tinha dessas coisas: apresentava lugares que pareciam fazer parte da nossa vida, mesmo sem nunca termos colocado os pés neles.

Naquela época não existiam redes sociais, vídeos de quinze segundos ou alguém contestando imediatamente tudo o que aparecia na televisão. A informação tinha outro ritmo. E a vida também.

Na segunda-feira de manhã, meu pai preparava meu lanche, me levava para a escola e, no caminho, passávamos na casa dos meus primos, que iam junto. O rádio estava sempre ligado, trazendo a previsão do tempo, as notícias e os acontecimentos da semana. Entre uma informação e outra, vinha alguma daquelas frases que eu já sabia de cor:

“Estudem pelo porvir do Brasil!”

Eu, evidentemente, não dava muita bola.
Afinal, minha obrigação era estudar. A dele era trabalhar, pagar as contas, cuidar da família e fazer tudo aquilo parecer muito mais simples do que realmente era.

E assim os anos foram passando.

O curioso é que meu pai continua praticamente o mesmo. Hoje leva os netos para a escola, acompanha a rotina deles e repete muitas daquelas frases. Nos churrascos de domingo, algumas histórias são contadas pela centésima vez. Eu escuto com saudade. Os mais novos reviram os olhos, exatamente como eu fazia.

E acho graça.

Porque agora entendo uma coisa que naquela época não entendia.
A gente não herda apenas o sobrenome dos nossos pais. Herda também o jeito como eles enfrentam a vida.

Cada família tem suas manias, suas expressões, seus pequenos rituais. Algumas lições são ensinadas numa conversa séria, mas muitas das mais importantes chegam disfarçadas de brincadeira, de repetição ou de uma frase dita no caminho da escola.
Meu pai nunca precisou fazer um grande discurso sobre responsabilidade. Bastava observar o que ele fazia na manhã seguinte.

E talvez seja por isso que aquela expressão tenha ficado tão marcada em mim.

São Pega não era apenas a segunda-feira. Era o compromisso de levantar, cumprir nossas obrigações e seguir em frente, independentemente da vontade de ficar mais um pouquinho no domingo.

Era entender que o mundo não para porque estamos cansados, contrariados ou porque alguma coisa não saiu como planejávamos.

E isso vale para muita coisa na vida.

Vale para quando um negócio não dá certo, quando um projeto fracassa, quando perdemos uma oportunidade ou quando o resultado de uma eleição não é aquele que esperávamos.

Neste último domingo, meu candidato perdeu a eleição.

Eu tinha minhas convicções, minhas esperanças e, naturalmente, gostaria de ter visto outro resultado.

Mas democracia também é saber conviver com a escolha da maioria, inclusive quando ela é diferente da nossa.

E foi justamente naquele momento que José e Catarina me fizeram uma pergunta tão simples quanto importante:

“Pai, e agora?”

Pensei no meu pai, no rádio ligado, nos meus primos entrando no carro, no lanche preparado e naquela vontade de assistir ao Sai de Baixo até o último minuto.

Pensei em quantas segundas-feiras ele enfrentou, mesmo quando provavelmente também gostaria que o domingo durasse um pouco mais.
E respondi:

“Amanhã é dia de São Pega.”

Porque o Brasil continua precisando de gente que trabalhe, estude, empreenda, cuide da família, participe da comunidade e não desista de fazer a sua parte.

Gramado continua precisando de nós. Nossos filhos continuam precisando dos nossos exemplos. E nossas responsabilidades não desaparecem quando nossas expectativas são contrariadas.

É claro que precisamos discutir política, cobrar resultados e defender aquilo em que acreditamos. Mas não podemos permitir que uma derrota nos faça perder algo muito mais importante: a disposição de continuar construindo.

Meu pai talvez nem imagine quantas coisas me ensinou com aquelas três ou quatro palavras repetidas durante tantos anos.
Mas é assim que os valores atravessam gerações.

A palavra marca. O exemplo arrasta.

E, se um dia José e Catarina repetirem essa expressão para os filhos deles, espero que entendam o que eu demorei tantos anos para compreender.

Que nem toda segunda-feira começa com vontade. Que nem todo domingo termina como gostaríamos.

Mas que nenhuma derrota pode ser maior do que a nossa responsabilidade de continuar.

Porque o domingo pode até terminar com uma derrota. Mas a segunda-feira sempre começa com uma escolha.

Afinal toda a Segunda feira é dia de São Pega.