Desmotivado











Nos últimos três dias fiz uma pergunta simples para dez pessoas:

“E aí, como está o espírito para as eleições?”

Duas nem sabiam que a campanha já tinha começado. Uma já estava com a famosa “colinha” praticamente pronta. As outras sete estavam acompanhando, algumas mais, outras menos, mas uma palavra apareceu nas conversas e ficou martelando na minha cabeça.

Desmotivado.

Não era raiva. Não era desinteresse. Era cansaço.

E o que mais me chamou atenção é que ouvi isso de pessoas que sempre acompanharam política, que discutem, cobram, querem mudança e que, em outras eleições, a essa altura já estavam completamente envolvidas.

Dez conversas obviamente não representam o Brasil, mas fui procurar os números e descobri que esse sentimento está longe de ser apenas uma impressão.

Uma pesquisa Nexus divulgada em agosto mostrou que 36% dos brasileiros estão cansados ou desconfortáveis com a polarização. E o Datafolha trouxe um número ainda mais forte: se o voto não fosse obrigatório, 43% dos brasileiros dizem que não iriam votar nesta eleição.

Talvez o brasileiro não tenha deixado de se importar com política. Talvez esteja cansado da política que está sendo oferecida.

E motivos não faltam.

A polarização chegou a um ponto em que parece impossível conversar. Se você critica um lado, automaticamente pertence ao outro. Se critica os dois, ganha um rótulo novo. O debate virou torcida, a torcida virou briga e, no meio disso tudo, paramos de discutir o país.

Enquanto isso, a vida real continua acontecendo.

Na fila do mercado ninguém precisa de economista para explicar o custo de vida. A conversa é sobre quanto custou a sacola, qual carne entrou no carrinho e o que precisou ficar para a próxima compra.

O empreendedor olha para os impostos, o trabalhador para o salário, a família para as contas e quem sai de casa olha para a segurança.

E eu continuo me perguntando: até quando conseguiremos sustentar uma máquina pública tão cara, tão pesada e que tantas vezes entrega muito menos do que deveria?

Eu tenho minhas convicções e não escondo nenhuma delas. Quero um Estado menor e mais eficiente, que cobre menos e entregue melhor. Quero mais liberdade para quem trabalha, produz e empreende. Quero a criminalidade sendo enfrentada com seriedade e respeito absoluto ao dinheiro público.

Você não precisa concordar comigo.

Mas precisa saber no que acredita.

E talvez eu tenha ainda mais responsabilidade em dizer isso porque eu vivo a política. Eu sou político. Conheço as dificuldades, as contradições, as decepções e sei perfeitamente por que tanta gente está cansada.

Mas também conheço muita gente boa lá dentro. Gente séria, preparada, que abre mão de muita coisa porque acredita que pode fazer diferença. Alguns pensam como eu. Outros não.

E tudo bem.

Mesmo que você não concorde comigo, não desista da política por minha causa. Nem por causa de ninguém.

Escolha outro. Procure alguém que represente aquilo em que você acredita. Questione meu trabalho, cobre, discorde, fiscalize. Isso também é democracia.

Porque quando as pessoas boas cansam, quando o cidadão se afasta e quando quem pensa diz “não quero mais saber disso”, a política não fica vazia.

Alguém ocupa aquele espaço.

E talvez seja justamente isso que algumas pessoas estejam esperando.

Quanto mais gente desacreditada, menos gente pergunta. Menos gente pesquisa. Menos gente compara. Menos gente cobra.

E quando o cidadão cansa de participar, alguém agradece.

Porque o espaço que você abandona não fica vazio. Alguém ocupa. Alguém decide. E, muitas vezes, alguém se beneficia.

Por isso, talvez esteja na hora de darmos um reset.

Não em quem pensa diferente. Não na democracia. Mas na maneira como estamos participando dela.

Parar de escolher alguém apenas porque odiamos o outro. Parar de terceirizar nossa opinião para influencer, grupo de WhatsApp, vídeo de dez segundos ou algoritmo. Voltar a pesquisar, perguntar, comparar e cobrar.

Qual o tamanho do Estado que queremos? Quanto estamos dispostos a pagar por ele? Como vamos enfrentar a criminalidade? Como gerar emprego? Como melhorar a educação? Quem realmente tem coragem de mexer naquilo que não funciona?

Essas deveriam ser as grandes discussões desta eleição.

Porque a política não para porque você cansou dela.

Ela continua. Só que sem você.

Então, se está cansado, transforme o cansaço em cobrança. Se está indignado, transforme a indignação em escolha. Se está desmotivado, procure um motivo.

Mas participe.

Quando o computador trava, a gente dá um reset.

Um país não tem botão.

O reset somos nós.

Porque talvez a maior vitória de quem não quer mudar nada seja convencer você de que não adianta tentar mudar.