Sob as bênçãos da Tia Jura











Existem lugares que nunca fecham quando apagam as luzes. Eles continuam funcionando dentro da gente.

O Cine Embaixador sempre foi um desses lugares. Ou Palácio dos Festivais. Depende da geração que está lendo esta coluna. Cada um conheceu aquele prédio por um nome diferente, mas, no fundo, todos estamos falando da mesma coisa: um lugar onde Gramado aprendeu a sonhar.

Nesta semana, depois de seis anos, aquela tela voltou a acender. E, confesso, parecia que uma parte da cidade também.

O cinema voltou. Não apenas para receber turistas, mas para receber gramadenses. Duas sessões por dia, sextas, sábados e domingos. Exatamente como antigamente, ou quase.

Domingo sempre foi meu dia preferido. Era a última alegria antes da segunda-feira chegar junto com a escola. A programação começava muito antes do filme. O combinado era encontrar os amigos, passar no Laricão ou no Billyscão para comer um cachorro-quente. Mas, dependendo da companhia… o lanche podia esperar.

Quem é da minha geração certamente lembra das filas do Rei Leão, Titanic. Elas dobravam a esquina do ponto de táxi. E ninguém passava pela bilheteria sem encontrar a Rijana Herrmann.

Na porta, de terno preto, camisa branca e gravata, estavam Leandro Cardoso, Flávio Schenkel e Nelson Herrmann, recebendo os ingressos com aquela elegância que parecia fazer parte do ritual.

Mas existia uma parada obrigatória antes de entrar na sala.

À direita, sempre à direita.
Lá estava ela.

A Jura.

Ou, para mim, simplesmente a Tia Jura.

Ela não precisava de computador, leitor de código de barras ou calculadora. Bastava apontar para o vidro da bomboniere. Um chocolate, um ping-pong, uma pipoca, uma bala. Ela colocava tudo naquele saquinho de papel, fazia a conta de cabeça, recebia o dinheiro e, com um sorriso, desejava um bom filme.

Hoje eu percebo que aquilo era muito mais do que vender guloseimas. Era acolher.

Ali do lado, na pequena cozinha, estava a Camila. Minha amiga de infância, as duas sempre juntas. Quando a Tia Jura saiu do cinema, a notícia correu a cidade. Ninguém queria que ela fosse embora. Até hoje acho que essa história nunca ficou completamente explicada.

Mas talvez isso também faça parte das boas lembranças, porque o cinema era muito maior do que os filmes.

Era onde começavam namoros, onde amizades se fortaleciam.

Onde o lanterninha chamava a atenção de quem fazia bagunça.

Onde tinha gente que levava coberta, chimarrão e passava duas horas vivendo uma história que não era a sua.

Naquela época, não existia grupo de WhatsApp para marcar encontro.

Bastava ir ao cinema.

Gramado inteira acabava se encontrando lá.

E então, seis anos depois, voltamos. Desta vez, atrás do balcão da bomboniere. O Orbis das Hortênsias assumiu esse espaço para que ele continue tendo o mesmo propósito de sempre: acolher pessoas e transformar pequenos gestos em solidariedade.

Estive lá com a Karen, o José e a Catarina. Servimos chocolate quente, pipocas e doces. Confesso que ainda estamos longe da habilidade da Tia Jura, mas tenho certeza de que, com o tempo, a gente aprende.

Ou, pelo menos, tenta.

O mais bonito daquela noite nem foi vender pipoca. Foi reencontrar amigos.

Foi ver pais levando os filhos exatamente para o lugar onde, anos atrás, eles também foram levados pelos seus pais.

Foi conversar com turistas e contar, com orgulho, que aquele talvez seja o único cinema de calçada do Brasil ainda em atividade.

Foi perceber que Gramado acabava de recuperar um pedaço da sua memória.

Porque cinema tem esse poder.

Ele apaga as luzes da sala… e acende lembranças.

Talvez por isso a reabertura do Palácio dos Festivais seja muito maior do que um cinema voltando a funcionar. É um espaço de convivência que volta a pulsar. Um lugar onde diferentes gerações continuam escrevendo a mesma história.

Agora, todas as sextas, sábados e domingos, as portas estarão abertas outra vez. Esperando novos filmes, novos casais, novas famílias, novas risadas e novas memórias.

E eu tenho a impressão de que, em algum lugar daquele balcão, a Tia Jura continua observando tudo isso. Conferindo se a pipoca está quentinha, se o atendimento está caprichado e se as pessoas continuam saindo dali um pouquinho mais felizes do que entraram.

Porque algumas pessoas trabalham a vida inteira em um lugar. Outras se tornam o próprio lugar, a Tia Jura conseguiu as duas coisas.

E eu gosto de pensar que esse cinema voltou exatamente como deveria voltar.

Sob as bênçãos da Tia Jura.