Para as eleições, chinelo e detergente











Em poucos meses iremos às urnas escolher nossos representantes de esfera estadual e federal e mesmo ainda não estando em período oficial de campanha eleitoral, ela começou há bastante tempo.

Teoricamente o período eleitoral serve para o eleitor tomar conhecimento dos candidatos, suas respectivas propostas e com isso tomar a decisão de escolha entre aquele ou aqueles que melhor representam suas convicções e necessidades. Na prática, propostas é o que temos e, acredito eu, teremos de menos.

Em um tempo onde nossos representantes ou aspirantes aos cargos se preocupam com marca de chinelos ou detergentes lava louças, não espero grandes debates de projetos ou de ideias, mas sim, narrativas. Talvez isso sempre existiu, mas possivelmente com o acesso ilimitado à informação através de redes sociais, tenha potencializado em níveis ainda não vistos.

Esse movimento ganhou força há cerca de dez anos atrás, com o processo de Impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Me parece que esse evento era um indício de um comportamento político e popular do Brasil e que, consequentemente com seu desfecho, criou um ambiente ainda mais forte de polarização política. De lá para cá, os ânimos foram ainda mais acirrados e pavimentaram a extinção do contraditório, seja para qual lado for. Para deixar claro, não entro no mérito do processo em si, se foi justo ou não, bom ou ruim, mas o que ele contribuiu e continua contribuindo para construção do cenário atual.

Essa atual polarização é tão nociva que, além de não vislumbrar um fim próximo, mina completamente as chances de construção de soluções aos desafios que enfrentamos. E não é para menos, ela se fortalece na medida em que um lado só existe se ou outro existir.

Em outras palavras, uma polarização precisa de antagônicos que se retroalimentam. É um eterno cabo de guerra que não admite terceiros participantes. E isso cobra um preço caro: populismo barato, apelação de valores universais e até religiosidade, utilizada não de maneira genuína, mas demagoga.

Ações de políticos acabam sendo pautadas para o agrado de um grupo específico com o intuito de incendiar ainda mais essa disputa ideológica. Neste cenário polarizado, quanto mais fogo melhor, já que o fortalecimento de ambos os lados tende a aumentar quando o caos é instaurado.

O resultado são eleitores que não querem ouvir o contraditório, tão pouco o debate de diferentes pontos de vista, mas sim, a repetição de ideias que já construíram e que estão internamente consolidadas dentro de si em um processo constante de reafirmação de valores e condutas pessoais.

E aí surgem as narrativas, onde o mesmo fato pode ser encarado de duas maneiras completamente opostas, depende do público-alvo que se pretende atingir, de modo que qualquer acontecimento é facilmente manipulado e em instantes transforma-se em uma guerra.

O próprio caso Vorcaro exemplifica fielmente esse pensamento, cada lado acredita que o envolvimento com o banqueiro só é pejorativo quando está ligado aos oponentes, caso contrário, mil e uma justificativas são criadas e defendidas.

A verdade é que a política brasileira mais parece torcida de times rivais de futebol do que um ambiente de senso crítico, como deveria. Famílias acabam se dividindo, amigos rompendo vínculos e indivíduos lucrando, e muito, com isso.

Mas é a realidade que temos e que provavelmente conviveremos por mais algumas eleições. Até lá, espero que a ponderação e o bom senso ganhem espaço em meio a essa interminável batalha de narrativas criadas por pessoas que nos bastidores, convivem muito bem.