Transporte Coletivo é estratégia











Mobilidade urbana em Canela é um tema que cedo ou tarde acaba surgindo em qualquer conversa que se tenha com um morador local. A constatação disso é simples: seja pela manhã ou no final da tarde a entrada da cidade, sendo ela pela Avenida das Hortênsias ou pela Vila Suzana, qualquer rótula central ou a Avenida João Pessoa estão sempre completamente paradas.

Naturalmente uma cidade turística do porte de Canela tem um tráfego intenso devido aos milhares de turistas circulando, mas olhando com atenção percebe-se que esses congestionamentos se dão expressivamente por veículos locais.

Ocorre que dezenas de milhares de pessoas vão todos os dias de Canela a Gramado para trabalhar e o carro é o principal meio de transporte adotado para percorrer o trajeto. Mas porque o carro? Por que não utilizar o transporte coletivo?

Várias são as possíveis respostas, mas uma em especial sempre me intriga e é uma verdade difícil de aceitar. Atualmente, mesmo com o preço elevado dos combustíveis, é mais barato ir de carro à cidade vizinha do que comprar uma passagem de ida e volta. Se o trajeto for feito por duas pessoas, nem se fala.

Além disso, a comodidade de não ter que descer em uma parada, caminhar ou chamar um serviço de aplicativo para chegar em casa deve pesar na decisão. E isso escancara uma falta grave de planejamento e desenvolvimento urbano da nossa região, nós nunca pensamos no transporte coletivo como deveríamos.

Não há rotas suficientes, não há ônibus suficientes, a tarifa é alta demais e os veículos de transporte municipal encontram-se em condições praticamente insalubres.

Isso é decorrência de falta de ação por parte do Poder Público, que não acompanhou o crescimento da cidade, tão pouco ofereceu estudos e soluções para essa situação ao longo dos anos.

Lamentavelmente as discussões da cidade para o tema estão muito mais voltadas para ampliação de ruas e avenidas do que no óbvio e infinitamente mais simples e barato investimento em transporte coletivo.

Para quem possui condições de ter veículo próprio, há alternativa. Mas para quem não tem? Cidades realmente grandes e muito populosas em países desenvolvidos apostam no transporte coletivo como estratégia e diferencial. Há lugares, inclusive, que é absolutamente desnecessário e impensável cogitar possuir um carro, simplesmente porque ele não é necessário.

Mesmo Canela tendo todas as dificuldades amplamente conhecidas, ainda somos o que eu chamaria de uma cidade privilegiada por várias razões. Se aqui não conseguirmos pensar em um transporte coletivo minimamente decente, imagine cidades maiores e com desafios mais graves do que os nossos.

Atualmente a Prefeitura Municipal tem desenvolvido um estudo para um posterior processo licitatório com objetivo de uma prestação de serviço mais adequada às necessidades atuais do município. Mesmo que polêmico, não acredito que deva-se deixar de discutir um possível subsídio municipal para redução de tarifa. Mesmo que tivéssemos ônibus modernos e rotas mais abrangentes, a tarifa ainda tem que ser atrativa para incentivar seu uso.

Um comentário de uma cidadã canelense no chat ao vivo durante a transmissão da sessão da Câmara na última segunda-feira dizia que uma das formas de medir o desenvolvimento de uma cidade não está em quantos veículos ela possui, mas sim em quantas pessoas utilizam o transporte coletivo. Concordo plenamente.