Ninguém aguenta mais











Canela dá sinais de que é crescente um movimento em busca de algo considerado básico para a convivência em sociedade. Algo que por vezes é tolerado, mas que parece ter chegado no limite do aceitável. A palavra que melhor define essa indignação coletiva é respeito, ou melhor, a falta dele.

Recentemente tornaram-se públicas diversas formas de manifestações populares pedindo às autoridades auxílio no combate a diferentes tipos e formas de perturbação da paz.

A mais conhecida e recorrente delas é o agrupamento de indivíduos ao redor do Parque do Lago que parece não se flagrar que existem pessoas residindo na proximidade.

Sendo justo, não tenho dúvidas de que se trata uma pequena parcela dos que ali frequentam como lazer, mas mesmo em menor número não são raros os relatos de som absurdamente alto as três ou quatro horas da madrugada. E aqui nem entro mérito do gosto musical de cada um, mas mesmo não sendo perito na área tenho certeza de que algumas letras não são condizentes em um lugar onde predominantemente é frequentado por famílias.

Evidentemente que esse problema não se resume a essa localidade, mas a praticamente todos os bairros de Canela, seja através de caixas de som, carros parados ou em movimento e veículos, sejam eles motos ou carros, com escapamento modificado.

Um dito popular bem conhecido diz que a liberdade de um indivíduo termina quando sua ação afeta a liberdade de outro. Isso é regra básica para convivência em sociedade e, convenhamos, o entendimento disso deveria vir de casa como um dos pilares fundamentais da educação.

Na dúvida de como agir para não desrespeitar terceiros, basta seguir as regras. Regras e legislações servem antes de mais nada para definir limites de comportamento e ação para um bem maior.

Por isso, toda e qualquer instituição que cabe zelar pelo seu cumprimento não pode e não deve se dar ao luxo de abrir mão dessa prerrogativa. Se não, a quem recorrer?

Nesse sentido, não posso deixar de parabenizar a Brigada Militar de Canela que iniciou uma série de operações no município com o intuito de coibir práticas de perturbação da paz alheia em diferentes localidades com diferentes focos de ação. Seja no Parque do Lago, no interior ou em diferentes bairros, carros, motos e equipamentos de som já foram apreendidos.

Da mesma forma, o Ministério Público do município entende que nesses casos o autor deve ser autuado e o meio com que promovia a tal perturbação deve ser recolhido até que a penalidade prevista seja cumprida.

O curioso de tudo isso é que na medida em que essas operações acontecem o número de reclamações e pedidos aumenta. E não creio que seja porque mais pessoas estão perturbando, mas sim, porque os incomodados enxergam uma luz no fim do túnel com o que está sendo feito.

Só que para além do comprimento da legislação com todo o seu rigor, acredito que temos a oportunidade de tentar prever casos futuros com crianças que um dia se tornarão cidadãos.

Na verdade, creio que a solução mais definitiva seja através da educação. A compreensão do que pode e do que não pode e, principalmente, das consequências pelo descumprimento e o impacto que isso provoca em uma comunidade é, certamente, um caminho de prevenção.

A mim chegam relatos de níveis sonoros absurdos, com letras mais absurdas e na ocorrência constata-se a presença de crianças. O desafio talvez seja a escola conseguir competir com essa realidade desde cedo apresentada a uma criança por pais sem responsabilidade alguma, que, acredito eu, tenham tido o mesmo tipo de experiência na infância e hoje reproduzem um padrão de comportamento.

Mas o fato é que não se pode mais esperar. Por várias razões, Canela parece ser “terra sem lei”, onde tudo pode e nada acontece. A percepção disso para o canelense é tão nociva que muitos já nem acreditam que situações possam ser corrigidas.

Recuperar essa baixa auto estima é o grande desafio da cidade. Acredito que o cumprimento fiel das regras seja um começo promissor para que nossa cidade diga em alto e bom som que aqui os errados não se criam.