Carnaval é coisa de velho











Talvez o Carnaval não tenha envelhecido.
Talvez nós é que tenhamos desaprendido a festejar.

Olha que frase estranha eu escutei esses dias no mercado.

Encontrei um amigo, desses de longa data, e perguntei quase no automático:

Vai pular Carnaval esse ano?

Ele respondeu sem nem pensar:

Eu não… Carnaval é coisa de velho. Nem a gurizada quer saber mais.

Fiquei com aquilo na cabeça enquanto empurrava o carrinho entre as prateleiras.

Carnaval… coisa de velho?

Talvez seja mesmo.
Mas não do jeito que ele quis dizer.

Eu cresci vendo meus pais se arrumarem para sair como quem se preparava para um ritual alegre. Fantasias espalhadas pela casa, purpurina grudada no rosto e risadas antes mesmo da festa começar. Eles faziam parte do Bloco dos Velhinhos Transviados, um nome brincalhão para um grupo que, na verdade, transbordava juventude de espírito.

Naquele tempo, Gramado vivia cinco noites seguidas de folia. Sexta na Minuano, sábado na Recreio, domingo na ExpoGramado, segunda novamente na Minuano e terça na Serra Grande.

Não era só festa. Era convivência. Era a cidade inteira se encontrando sem pressa, sem filtros, sem a necessidade de transformar tudo em espetáculo.

Muita gente não sabe, mas o Carnaval de Gramado nasceu assim. De clubes, de blocos formados por amigos, vizinhos e famílias. Era uma celebração feita com as próprias mãos, onde o valor estava no encontro e não na vitrine.

Hoje, anos depois, eu e a Karen também vestimos a fantasia dos Velhinhos. E ali reencontro exatamente aquilo que vi quando criança. Gente que ensaia junto, que se ajuda, que discute enredo e bateria como quem prepara uma carta de amor para a cidade. Cada detalhe importa porque cada detalhe carrega memória.

Nas noites de apresentação, um bloco prestigia o outro. Existe respeito, admiração e uma alegria silenciosa em ver o outro brilhar. Não é disputa. É pertencimento.

Talvez por isso seja tão estranho olhar para outros carnavais pelo país e perceber o quanto a festa tem se afastado daquilo que a tornou a maior manifestação cultural brasileira.

Este ano, em plena Sapucaí, vimos desfiles virarem palanque. Tentativas de lacrar em vez de encantar. Mensagens pensadas mais para dividir do que para emocionar.

O Carnaval sempre falou do seu tempo, isso faz parte da sua essência. Mas quando a arte perde espaço para o grito, algo se rompe. A festa deixa de unir.

E talvez seja justamente isso que afasta tanta gente, principalmente os mais jovens, de algo que deveria ser, antes de tudo, um encontro de alegria.

Aqui em Gramado, ainda resistimos e é impressionante o quanto até nisso somos diferentes.

Nos nossos blocos, a mensagem continua sendo amizade, humor, memória, carinho. Não precisamos gritar para sermos ouvidos. Não precisamos provocar para existir. A nossa maior ousadia ainda é fazer as pessoas sorrirem.

Talvez o Carnaval esteja envelhecendo não porque os velhos continuam indo, mas porque os valores que sustentavam a festa, de certa forma, ficaram pelo caminho.

E se preservar amizade, tradição, respeito e alegria simples for coisa de velho…

então eu quero ser velho, ou melhor, Velhinho para sempre!