Tá faltando lápis











Certo dia, escutei de um professor uma história simples, mas que ficou ecoando na minha cabeça.

Em sala de aula, ele percebeu que um aluno estava escrevendo com um lápis de cor. Achou estranho e perguntou o motivo. A resposta veio direta, sem malícia nenhuma:
“Professor, eu só ganhei esse da Prefeitura. Agora acabou. A gente vai ganhar mais?”

A pergunta não era um pedido. Era quase uma constatação.

Gramado, entre tantas políticas públicas importantes na educação, passou a entregar uma quantidade significativa de materiais escolares no início de cada ano. Lápis de escrever, lápis de cor, cadernos, borracha, tesoura, apontador, folhas A4. Para muitas famílias, isso representa uma economia enorme no começo do ano letivo. Alivia o orçamento, promove igualdade e dá condições reais para que as crianças aprendam.

É bonito e necessário.
E ninguém é maluco de ser contra.

O que me incomoda não é o papel da escola, nem da Prefeitura, que desenvolveu uma ação importante e bem-intencionada para apoiar as famílias.

O que me preocupa é aquilo que todo mundo sabe, mas finge não ver.

Todos nós sabemos que existem pessoas que têm condições financeiras e, mesmo assim, retiram os materiais escolares gratuitos.

É direito, tudo bem, e não pode ser negado. Mas a gente sabe também que esse comportamento se repete em outros setores.

Ele se repete na farmácia popular, quando medicamentos são retirados sem necessidade real, e se repete quando consultas e exames são marcados e simplesmente não há comparecimento.

Quem paga essa conta não é um ente abstrato chamado “governo”.
Quem paga somos todos nós.

Cada material retirado sem necessidade é um recurso a menos para quem realmente precisa. Cada consulta perdida é uma vaga que poderia ter atendido outra pessoa. Cada abuso do sistema enfraquece a política pública e reforça a sensação de que nada funciona.

Nós vivemos em um Brasil muito acostumado a achar que tudo é responsabilidade do governo.

Se algo falta, a culpa é do governo. Se algo não funciona, o governo falhou. Esse pensamento confortável transfere a responsabilidade e nos afasta do compromisso individual.

Assistência é diferente de dependência. Apoio é diferente de acomodação.

Quando o assistencialismo ultrapassa o limite saudável, ele deixa de proteger e passa a estimular comportamentos oportunistas, para quem ganha e para quem entrega.

E isso, a longo prazo, corrói a confiança social e destrói o senso de justiça.

Muitos podem questionar: “Mas e se a família realmente precisa? Por que o governo não ajuda ainda mais?”
Porque uma sociedade forte não terceiriza toda a solidariedade para o Estado.

É aqui que entra algo que sempre fez parte da minha vida: a sociedade civil organizada. Clubes de serviço, voluntariado, ações comunitárias. Eu faço parte do Orbis Clube desde a infância, junto dos meus pais, e hoje sigo participando com a minha esposa e meus filhos. Ali aprendi que ajudar o outro não é obrigação do governo, é dever de quem pode.

Quando a sociedade deixa de se envolver e passa a esperar tudo do poder público, algo se quebra. Perdemos o senso de comunidade, de corresponsabilidade e de cuidado mútuo.

E isso é sagrado em uma sociedade sadia!

Quando isso acontece, nenhuma política pública dá conta.

Educação não é só entregar material.
Educação é formar caráter, consciência e autonomia.

Talvez esteja faltando lápis.
Mas talvez esteja faltando, principalmente, responsabilidade individual.

E isso vem de casa.

A boa política pública apoia.
A boa sociedade participa.

E é desse equilíbrio que nasce uma cidade mais justa e um país mais forte.