Desliga a televisão e vai ler um livro











“Desliga a televisão e vai ler um livro.”

Essa frase marcou uma geração inteira. Era a mensagem de um dos meus canais preferidos, a MTV. E não vinha em forma de bronca ou campanha educativa. Vinha justamente de um canal que respirava música, comportamento e cultura jovem.

Lembro como se fosse hoje. Eu estava em casa quando um barulho estranho, quase como um apito contínuo, começou a ecoar pela sala. Saí do quarto e encontrei a televisão ligada em uma tela preta. Nenhum clipe, nenhum programa, nenhum apresentador. Apenas aquela frase, fixa e provocadora, que ficou ali por cerca de trinta minutos.

Como assim?
Meu canal favorito interrompendo a própria programação para me mandar ler um livro?

Hoje, isso seria como imaginar o YouTube, o TikTok ou o Instagram simplesmente deixando de funcionar por um dia inteiro.

Só de pensar já dá para prever o caos. Mas também dá para imaginar outra cena.

Talvez as pessoas levantassem mais a cabeça quando caminham na rua.
Talvez olhassem as vitrines, as fachadas, as flores da cidade.
Talvez se cumprimentassem mais.
Talvez conversassem sem a necessidade de olhar para uma tela a cada poucos segundos.

Essa reflexão voltou forte para mim recentemente, durante as férias do José e da Catarina. Em meio a tantas opções de telas, decidimos fazer algo simples: buscar livros para serem lidos nesse período. Fomos à biblioteca pública da cidade. Um espaço que muita gente esquece que existe, mas que é um verdadeiro tesouro cultural.

Hoje, nossa biblioteca conta com quase 50 mil exemplares à disposição da população, totalmente de graça. Livros para todas as idades, gostos e interesses. Um patrimônio, acessível e riquíssimo, esperando apenas que alguém entre, escolha um título e leve uma história para casa.

Foi ali, entre estantes e páginas, que essa ideia se conectou com algo maior.

Vivemos uma era de estímulos constantes. Curtidas, vídeos curtos, notificações, polêmicas fabricadas. Uma quantidade gigantesca de conteúdo sendo consumida todos os dias. Muitas vezes conteúdo raso, repetitivo e sem profundidade. Isso gera descargas hormonais rápidas e viciantes, que nos afastam de uma vida mais presente, mais analógica e, em muitos casos, mais reflexiva.

Não é falta de informação. É excesso dela, sem filtro, sem pausa e sem tempo para pensar.

Essa sensação sempre me lembra um filme lançado em 2006 chamado Idiocracia. A história acompanha um soldado americano absolutamente comum que participa de um experimento militar de hibernação. O plano era simples: acordá-lo alguns meses depois. Algo dá errado, e ele desperta 500 anos no futuro.

Nesse futuro, a humanidade se tornou profundamente ignorante. A educação desapareceu, a ciência foi desacreditada e tudo passou a ser resolvido com impulsos, slogans e entretenimento raso. O personagem principal, que era apenas mediano em sua época, torna-se o homem mais inteligente do mundo.

Quando o filme foi lançado, parecia exagero. Hoje, parece um alerta.

Não se trata de demonizar a tecnologia ou as redes sociais. Elas são ferramentas incríveis.

O problema começa quando elas ocupam todo o espaço da nossa vida e substituem a leitura, a conversa, o silêncio, a observação e a convivência.

Talvez a gente precise, de vez em quando, desligar a tela por escolha própria. Ler um livro. Caminhar sem fone de ouvido. Olhar a cidade. Olhar as pessoas. Estar presente.

Porque a vida acontece fora da tela.
E nenhum like vale mais do que uma boa história vivida de verdade.