O caminho das pedras, o caminho das flores











Quem convive com Gramado escuta isso o tempo todo.
“Cheguei na cidade e logo me encantei.”
“É tudo florido, tudo muito bem cuidado.”
“Os paredões de hortênsias são únicos.”

Para quem nos visita, parece que sempre foi assim — que sempre foi Jardim das Hortênsias. Mas nem sempre foi.

Dizem que o turismo é a busca por aquilo que você não tem. E Gramado soube, como poucas cidades, transformar cuidado, beleza e identidade em experiência. Mas nada disso aconteceu por acaso.

No início do século passado, quando o Major Nicoletti organizava a cidade para a chegada do trem, um gesto simples mudou para sempre a nossa paisagem. Em 1917, Dona Oswaldina e João Leopoldo Lied trouxeram mudas de hortênsias do Rio de Janeiro, que foram cuidadas, multiplicadas e espalhadas pelos jardins da cidade — um ato que semeou, literalmente, a nossa identidade. 

Como costuma dizer meu pai, muitas famílias ao longo das décadas se esmeraram para que aquilo se tornasse nossa marca registrada — gente que entendeu, antes de qualquer plano, que cidade bonita também é cidade acolhedora.

Lembro com carinho de nomes como Irma Peccin, Ermida Perine, Suzana Bertolucci, exemplos de cidadania, cuidado e amor por Gramado. Poderia citar muitas outras — e deixo aqui o convite para que você, leitor, também me ajude a lembrar e registrar essas histórias.

Na nossa memória mais recente, uma ação vem fazendo exatamente esse resgate profundo da nossa história e dos nossos valores: o Projeto Hortênsias, idealizado pela empresária Beatriz Gehlen, com curadoria e realização da equipe liderada por Marta Rossi e Eduardo Zorzanello. 

Lançado oficialmente durante o 37º Festuris, o projeto vai muito além do embelezamento urbano. Ele propõe fortalecer o sentimento de pertencimento da comunidade, conectando passado, presente e futuro por meio de ações educativas, culturais e sociais, unindo tradição, educação e turismo de forma sustentável. 

Marta sempre nos lembra que a hortênsia não foi apenas um enfeite — foi o arranque do desenvolvimento econômico de Gramado.

Décadas depois, em uma palestra do nosso sempre prefeito Pedro Bertolucci, ouvi algo que nunca esqueci. Em seu primeiro mandato, a primeira política pública lançada chamava-se VTP.
Confesso: na hora me perguntei — que raios isso significa?

VTP era Vassoura, Tinta e Pincel.
Simples. Direto. Gigantesco.

Uma calçada limpa.
Um meio-fio bem pintado.
Flores, jardins, cuidado diário.

Esse conjunto funciona como estímulo ao empreendedor, ao morador. Serve como remédio para a ansiedade, como cenário para pedidos de casamento, como plano de fundo para fotografias ou simplesmente como um presente silencioso para quem passa. As hortênsias que coroaram nossas rainhas e enfeitaram para-choques de carros hoje são “instagramáveis” — e seguem vendendo bem nosso destino.

Isso também é política pública.
Talvez da mais bonita.

Por isso sou admirador do trabalho realizado no Horto Municipal, que prepara mais de 1,2 de mudas para cada estação, cada canteiro, cada espaço da cidade.

Chegar até aqui não foi fácil.
O caminho teve pedras, desafios, erros e acertos.
Mas o caminho das flores precisa estar eternizado em cada um de nós — como memória, como responsabilidade e como compromisso com o futuro.

Porque cidades que cuidam dos detalhes contam histórias que duram.