Canela sendo Canela











Passado alguns dias da operação que retirou as tendas e as pessoas que promoviam o comércio ilegal no entorno da Catedral de Pedra, parece que o lugar voltou a respirar.

Estive nesta semana em duas ocasiões na lateral direita da igreja e pude ver um bom número de pessoas caminhando por ali, turistas e estudantes predominantemente. Os vasos, além de uma solução de limitação de espaço para impedir possíveis novas ocupações, deram um ar bastante charmoso para a praça.

Além disso, o encontro mensal de carros antigos, realizado no último final de semana utilizando a rua lateral, mostrou que podemos promover muitas atividades e ocupar de maneira positiva aquele espaço tão importante de Canela.

Mas o objetivo deste texto é poder dividir com as pessoas minha angústia em lembrar que aquele lugar foi tão rapidamente tomado e que ficou na dramática situação por tanto tempo. E por que isso aconteceu?

Falo isso porque me parece que nós, canelenses, ainda não nos apropriamos da nossa cidade. E é duro falar isso, mas talvez o estado da Casa de Pedra, do Teatrão, do Centro de Feiras, do Parque do Palácio e da até então calçada lateral da Igreja Matriz mal ocupada tenham alguma relação com isso.

Se unidos fossemos em torno dessa cidade, duvido muito que o governo, o prefeito ou o grupo de pessoas que fosse teria tanta facilidade em deixar de lado patrimônios dessa importância com tamanha naturalidade. Da mesma forma que aquele comércio irregular talvez não tivesse sido tão facilmente se instalado como se aqui fosse terra de ninguém.

Já falo nas sessões da Câmara de Vereadores há algum tempo, em Canela falta sentimento de pertencimento. Uma pessoa com sentimento de pertencimento não joga lixo em qualquer canto, não importuna o bairro inteiro com som alto, não aceita o abandono de bens públicos. Um cidadão com sentimento de pertencimento defende sua cidade e sua comunidade.

E depois do êxito em retirar algo tão nocivo para o centro talvez seja essa a hora de abraçar a cidade e começar a defendê-la. E quando falo em abraçar vai muito além de momentos simbólicos -os quais sou amplamente favorável- mas abraçar no sentido de querer bem, crescer junto e principalmente ter orgulho desse lugar.

Claro que isso não é fácil, muito menos instantâneo. Como alguém que tem água na torneira dia sim dia não, que mora em uma localidade insalubre, ou que se sente desamparado pelo poder público pode desenvolver esse sentimento?

Uma autoestima muito baixa toma conta da cidade quando apenas coisas ruins são percebidas pelas pessoas, mesmo que muitas outras boas aconteçam, talvez até em maior proporção, parece que somem por trás de notícias ruins.

Esse talvez seja o maior desafio do poder público atualmente: devolver a autoestima do canelense através de um trabalho sério e representativo.

Ainda se ouve muito a expressão “Canela sendo Canela” quando algo negativo acontece por aqui. E eu até entendo o porquê. Vivemos escândalos políticos diversos, vimos nosso patrimônio se deteriorando, vimos empresas destruindo a cidade sem nenhuma penalidade, criminalidade em crescência.

E se ao invés disso usarmos a expressão “Canela sendo Canela” quando conseguimos retirar o camelódromo do principal ponto da cidade, quando percebemos que temos mais belezas naturais que a maioria das cidades turísticas, ou que temos uma riqueza cultural singular?

Espero que não demore muito, mas o dia em que valorizarmos mais as nossas diferenças positivas do que as negativas e nos orgulhamos em dizer “Canela sendo Canela” teremos uma cidade defendida, querida e amada por dezenas de milhares de canelenses que se sentirão parte desse lugar.