Uma faísca de Cultura











O Teatrão de Canela recebeu mais de mil pessoas em três dias no último final de semana quando sediou peças de teatro naquele edifício histórico. Não tenho dados oficiais, mas pelos rostos que pude observar o público em geral era local.

Isso me faz tirar algumas conclusões. O primeiro e mais óbvio para mim é que a veia teatral e artística ainda é muito pulsante em Canela. E isso justifica talvez o importante número de pessoas que se deslocaram até o Teatrão em dias chuvosos, frios e nada convidativos para um ambiente sem climatização.

Quem dera fosse só isso, na noite de sexta-feira saí com o braço esquerdo úmido devido a uma goteira que atingia minha fileira. Mas nem isso foi capaz de tirar o sentimento nostálgico de estar naquele lugar. Naquele palco me apresentei algumas vezes, cerca de 15 anos atrás, no Festival de Paródias do Colégio Marista e foi ali que perdi um pouco do medo do público.

Junto a esse bom sentimento, as apresentações fizeram jus ao tamanho do público presente. A qualidade foi tanta que acredito que a maioria nem lembrava mais de goteiras ou do frio. Naqueles momentos Canela revivia seus bons anos de teatro e de cultura com todo seu protagonismo.

Mas é no mínimo angustiante ver o potencial artístico histórico da cidade ainda tão vivo e ao mesmo tempo caminhar cerca de 300 metros e ver a Casa de Pedra fechada e apodrecendo, Centro de Feiras fechado e apodrecendo e o Teatrão resistindo de forma precária ao longo do tempo.

Não há e certamente não haverá justificativa para o abandono de não um, mas de todos os espaços culturais de Canela ao longo dos últimos anos. Espaços que tinham a nobre missão de sediar eventos importantes para o funcionamento da cidade, mas também de revelar talentos, promover cidadania para o canelense ou até mesmo ajudar um jovem a perder o medo de faltar em público, como foi meu caso.

Mas sou otimista, vejo um número crescente de pessoas se angustiando com isso também. Vejo o Festival Internacional de Teatro de Bonecos voltando este ano, vejo planos de recuperação desses espaços em andamento.

Talvez voltemos a ser referência nesse sentido. Talvez consigamos através de políticas públicas de incentivo e apoio criar sentimento de pertencimento no canelense pelo orgulho de um trabalho desenvolvido aqui. Talvez ao invés de sermos exportadores de artistas, consigamos oportunizar uma vida profissional bem aqui, em Canela.

Nossos espaços são ferramentas, meios, pontes de oportunidade. Se fechados contribuem ainda mais para minar a possibilidade de desenvolvimento de talentos e de propagação da cultura. E isso se torna tão evidente na medida em que percebemos que Canela enfrenta dificuldades muito sérias ligadas ao comportamento da sociedade.

Criminalidade em crescência, falta de civilidade e desrespeito às regras básicas de convivência são temas, infelizmente, cada vez mais habituais. E já que os valores sociais e culturais definem a forma que uma sociedade pensa, sente e age, será que não desperdiçamos nossa potencialidade cultural em utilizá-la no enfrentamento desses desafios?

Se estamos em um momento chave, temos as ferramentas e somos abundantemente ricos culturalmente, é necessário o esforço público para dar suporte ao desenvolvimento de ações neste sentido.

Até lá, contamos com pessoas incansáveis que se negam a desistir de ver Canela não somente nos palcos novamente, mas brigando por algo que sempre representou e continua representando nosso maior diferencial enquanto cidade, nossa riqueza cultural.