As duas cidades de Canela











Desde os primórdios Canela foi vista como um lugar único. O clima, o ar, a localização, as belezas naturais e o potencial dessa terra despertaram o interesse e aguçaram a visão de alguns visionários que vieram a ser responsáveis pela cidade que se formou.

Seja como destino de veraneio, como pólo madeireiro ou no mais recente importante atrativo turístico que é, o município se torna ao longo da história um lugar charmoso, simpático e singular.

Canela sempre foi uma cidade com atrativos ligados à segurança e qualidade de vida. É um refúgio natural para moradores de cidades grandes próximas que buscam características não tão mais facilmente encontradas em outros municípios Brasil afora.

A fama, a beleza e o sentimento que esse lugar desperta é tentador para pessoas de muitos lugares, um dos motivos que justifica sermos uma das maiores potências turísticas do país.

A busca por uma melhor qualidade de vida e uma ideia de oportunidade fazem parte da história do município e ainda hoje muitos -quase trezentas pessoas para ser mais exato- vêm mensalmente viver em Canela, pelo menos é o número médio mensal de transferências de Cartões SUS para a cidade.

Mas isso tem um preço. A estrutura física, de serviços ou de capacidade territorial não suporta uma migração tão acentuada e começa a contestar os valores e os atrativos pelos quais a cidade sempre foi reconhecidamente referência.

As últimas grandes escolas foram construídas quando a população canelense era a metade da atual, postos de saúde e ruas de igual forma. E mais recentemente algo muito caro a todo canelense também tem sido fortemente afetado, a sensação de segurança.

Nas últimas semanas, tiroteios espalhados pela periferia de Canela têm acontecido praticamente todas as noites. Tivemos recentemente um episódio lamentável em frente a um dos pontos turísticos mais visitados do Brasil, no coração da cidade, a luz do dia. Incêndios motivados por organizações criminosas e prisões de pessoas ligadas a facções e ao tráfico de drogas ocorrem semanalmente.

Em paralelo a isso, Canela cresce desordenadamente. Há vinte anos atrás não existiam regiões de moradias irregulares significativas para um estudo, hoje são quase trinta, sendo mais de três mil casas em áreas invadidas ou irregulares.

O diagnóstico não é simples e envolve dezenas de fatores, mas certamente é acentuado com a chegada desordenada de tantas pessoas, que, em bom número, se deparam com um custo de vida alto e habitação inacessível, sendo a moradia irregular a opção mais óbvia.

Mas qual a relação entre segurança pública e migração? Exatamente a mesma provocada na dificuldade de atendimento com rede de ensino e de saúde: A estrutura pública não conseguiu acompanhar o crescimento populacional de maneira proporcional e cada dia que passa tem mais dificuldade de atender a todos, inclusive as estruturas de segurança.

E nesse ritmo não terá mesmo. O efetivo das forças de segurança já é defasado e com o aumento de ocorrências (inerentes ao aumento de população), sobrecarrega os profissionais, que não conseguem atender a demanda exigida.

E neste ponto, a administração pública de Canela deve adotar algumas posturas para, no meu ponto de vista, mitigar a situação que pode se tornar insustentável. A primeira é um diagnóstico qualificado e um posterior plano de ação que tenha como cerne o planejamento da cidade e suas respectivas consequências. A migração de pessoas é natural, mas deve estar contemplada em um plano que a compreenda.

A segunda é a fiscalização rigorosa inibindo novas invasões, que inclusive comprometem o meio ambiente e a segurança dos munícipes, já que uma importante parte delas se localiza em áreas de risco. E a terceira, mesmo sendo de responsabilidade estadual, é a Prefeitura Municipal promover medidas de apoio às forças de segurança e auxílios, inclusive incentivos econômicos, aos profissionais de modo a tornar este lugar atrativo para se trabalhar e, com isso, atrair novos agentes.

Falando assim parece um tanto quanto simplória a execução, mas não é. A falta de planejamento escancara situações complexas e sem soluções aparentes, mas somente ele é quem pode fornecer as respostas para os nossos problemas. Dá trabalho, exige muito esforço, mas acredito ser o único caminho.

Sou sempre muito insistente nisso, porque planejar envolve todos os possíveis fatores de um lugar e justamente quando se estabelece relações entre eles é que é possível desenhar caminhos a serem seguidos.

Sem uma medida importante neste sentido haverá o dia em que poderemos ter duas cidades de Canela: a turística com segurança, oportunidade, belezas naturais e arquitetônicas, e outra esquecida, com violência, sub habitação e desigualdade. Ou será que já não chegamos nesse dia?