Política, não politicagem











Que a política brasileira se alimenta de uma polarização há algum tempo, formando duas torcidas rivais, não é novidade para ninguém, mas essa polarização ser pauta chave com alto grau de envolvimento de discussões internacionais e provocar impactos sem precedentes, é, sem dúvida, novidade.

A globalização por vezes cria desafios que testam a capacidade das relações entre nações que, de uma forma ou outra, dependem entre si. Decisões tomadas no outro lado do mundo têm impacto direto na vida das pessoas, seja bom ou ruim. Normalmente essas decisões são políticas e como tais, decididas por pessoas. Pessoas diferentes, de culturas diferentes, que pensam diferente, mas que encontram o equilíbrio para conviverem da forma mais harmônica possível, suprindo e sendo suprido.

É notório que o assunto do momento, pelo menos para nós, é a relação dos Estados Unidos com o Brasil e na tarifa imposta de 50% sobre produtos brasileiros exportados ao país norte americano. E pior do que essa situação, ao meu ver sem nexo, justificativa ou inteligência mínima alguma, é se apropriar do tema – complexo que é – para fazer politicagem. Não política, politicagem.

A diferença entre essas duas palavras parecidas é que uma representa ações pensadas no e para o coletivo e a outra em ações com objetivos e interesses individuais.

Se de um lado temos um político conhecido e autodeclarado polêmico e controverso, eleito sobre pautas populistas, de outro temos um governo que parece estar se aproveitando da situação para criar narrativas eleitoreiras.

Falando dessa forma fica difícil saber quem é o brasileiro e quem é o norte americano. Talvez porque, respeitando o posicionamento político ideológico de cada um, os meios de ação entre eles sejam até meio parecidos quando se fala em conquistar a massa.

E nessa relação conturbada entre esses dois extremos nasce uma guerra sem vencedores. A medida inviabiliza negócios e setores importantíssimos para a economia brasileira através da exportação e, consequentemente, encarece o produto importado e consumido pelos americanos.

Só posso deduzir que o governo americano tem um plano muito significativo para taxar meio mundo e ir, como ele mesmo define, negociando caso a caso. Neste meio tempo a economia global é abalada substancialmente e os produtos chegam mais caros aos americanos. Confesso que não consigo encontrar lógica nas medidas.

Mas o ponto em que eu gostaria de chegar é justamente em que poucos dias após anunciar as tarifas ao Brasil e, antes mesmo de entrarem em vigor, é divulgada hoje uma lista de setores e produtos que não serão taxados. É bastante desafiador tentar compreender os critérios, se foi pressão interna, se reconheceram um erro, ou se foi mais uma mirabolância do mandatário que, creio eu, esqueceu que comanda um país, não uma empresa.

Se já não fosse dramática o bastante a discussão sobre exportação e importação, toda essa situação deu margem, ainda, para alfinetadas sobre os rumos da justiça brasileira, julgamentos de ex-presidente, políticos e até sobre o PIX, como fatores a serem levados em consideração na negociação o que, claro, é inadmissível sequer tolerar a abertura desse diálogo que representa uma clara invasão de assuntos exclusivamente brasileiros.

Então, já que não há como impedir a vontade, por mais insana que seja, de um presidente que parece querer comandar o mundo, o desafio agora é achar um equilíbrio entre não abrir em hipótese alguma a mão da soberania nacional e ao mesmo tempo entrar em comum acordo para minimizar os danos.

Espero que o governo brasileiro perceba que esse não é um tema a se lucrar para aprovação com fim nas eleições que se aproximam. O momento exige muita diplomacia, seriedade e objetivos alinhados na preservação do país e de quem nele empreende.

Bom fosse se os dois antagônicos lembrassem que momentos assim exigem política, não politicagem.