Divisa









“a gente pensava que tava pronto, mas não,
não tava pronto.
era uma maquete da praça
que a professora de geografia havia pedido
no final do semestre
que deveria ser feita em grupos de quatros pessoas,
aí foi eu, a Bela, o Beto e o Robledo fazer a tal da maquete

eles só queriam terminar logo pra sair e chapar por aí
enquanto que eu e a Bela estávamos empolgadas,
com vontade de fazer algo legal”
“ela sempre foi apaixonada
pelo trabalho artesanal da mãe dela, né?”
“sim, nossa,
tanto que ela foi cursar artes plásticas na federal.
gosto muito da arte dela com carrancas”
“carrancas?”
“é, ou algo do tipo.
enfim, foi a mãe do Beto
que sentiu falta dos bancos, acredita?”
“como assim vocês se esqueceram dos bancos?!”
“ah, pois é
os meninos estavam tão de má vontade,
numa reclamação,
que ficamos desfocados,
sem falar nas tarefas individuais
que não tinham relação uma com a outra

o Robledo,
aliás,
que ficou com o desenho dos caminhos…
pelo jeito ele imaginou pessoas atravessando
e não parando para passar um tempo lá.
certo: logo depois que a mãe do Beto saiu
o Robledo jogou dez reais na mesa e disse:
‘pra vocês duas que gostam de coisas inúteis
vou deixar essa grana de incentivo. bora, Humberto’

aí o Beto não teve coragem
e ficou com a gente pra terminar a maquete

desde então não andei mais com os ‘guris’,
só falo com o Beto mesmo.
na época eu pensava que seria passageiro,
mas, enfim, eles continuaram a dar mancada
aí já viu, né, Kika?”
“caramba, Joana, que chato…”