Uma rima em minha vida











“Estruturada propositalmente para determinado fim em si mesma”

DIEISON BARCAROLO

A vida as vezes nos prega peças, tantas outras somos o próprio teatro. Interessante como, neste roteiro, nem sempre somos obedecidos. A vida é como a regra das rimas. Não é porque está na estrofe que combinará com a próxima palavra. As palavras que começam sempre são descartadas. Ninguém dá importância para elas. Afinal de contas, a rima está na última mencionada. Curioso e intrigante é como elas são dispostas. A vida também é assim. O cenário muda em todas elas, mas o roteiro é bem parecido. Conta a lenda que a vida é uma rima que aspira por socorro. Nela, apesar do tempo, está o começo e o fim. Muitas delas não tem meio. Tantas outras são simples como um passarinho que passou num passo d’asas no passado. Uma simples passagem de tempo conta o fim de uma rima inteira. Tão curiosa como são as rimas que a própria vida lastima seu fim. Outrora lembrarão dela. Hão de lhe escrever em todas as folhas como semblante de um famoso qualquer. As rimas são como passarinhos que vivem soltas num céu muito curto. O céu dos passarinhos se limita aos galhos e aos outros passarinhos. A vida é assim. É o limite da Lua ao próprio ser de cujo intelecto não conhecido. Um intelecto tão raro que, de tantas vezes estudado, se percebe que ainda não se conhece a si próprio. Talvez, essa seja a resposta de toda uma rima. Seu fim não se limita ao meio. Seu fim é seu próprio desconhecimento. Sua própria ânsia por desejar ser si mesmo. Sua própria ambição de rimar a primeira palavra. Por sua vez, percebe que a vida não é como deseja ser. As rimas, do começo ao fim, são rimadas apenas assim: última palavra com a última mencionada. E a primeira, está e ficará à espera de sua combinação perfeita. Mal sabe ela que somente rima se está só. A primeira não é a última, como alguns dizem por aí. Ela apenas não foi mencionada. Apenas está a espera ansiando por uma oportunidade. Se ainda está com alguém, ela está completa, mas infeliz. Quando só, ela rima, mas rima triste. Pois percebe que não pode se fazer presente. A premedita e inóspita palavrinha jamais ficará só. Há alguns que lhe conferem permissão. Ainda assim, jamais lhe estenderão razão. Pode até estar ali. Mas ainda estará em submissão. Contudo, ela tem uma única missão, cuja incumbência é a mais bela. Talvez, como todas as árduas tarefas, o preço da beleza seja a solidão. Tão só que a própria história, o mito do próprio homem lhe incumbiu viver só. O mito da génesis se tornou aforismo. Tão único que um só capítulo de uma vida lhe couberam dezenas de outros personagens. E, por conseguinte, lhe acometeu a vida, a morte e a coragem de viver como ainda vive hoje. A tal bendita das benditas rimas de uma só linha, de tão bela que só ela, dedica seu nome a sua ama, seu intelecto individual a única personagem devida: a própria palavra, a própria rima. Ela, a primeira, a única das tantas outras vizinhas pré-dispostas, se eleva para ser única. Essa, a vida. Essa, a rima. Esta, eu. Uma rima em minha vida.