O Estopim











Natal Dejà Vu?
parece que falta um acento, não parece?

pois foi essa última pergunta
que acabou com uma briga ferrenha travada entre dois irmãos

bem, vamos descobrir como essa briga começou:

Humberto era um jovem adulto que gostava de escrever poemas
simples, de modo geral

seu pai, Edson, achava aquilo interessante
mas a paz que ele sentia ao ver o rapaz ocupado em encontrar boas palavras
era o bastante,
ele nem precisava ler os poemas para curtir a poética da coisa

esse deleite, tipo espuma, é precioso
quanto prazer está à toa, sobrando?

mesmo assim
Humberto se chateava pela ausência de leitores
porque a vontade de mostrar o furor suas ideias era quase
que um embalo do movimento anterior

ele até sabia que a escrita era mais para ele mesmo
uma tentativa constante de agarrar aquele troço que ele sentia
e mostrar pra si o que lhe era invisível
mas gritante

aí ele ficava andando pra cima e pra baixo caçando sua angústia

contudo, o que é aparente é afetado:
às vezes com uma camisa, às vezes com uma jaqueta
ele sabia
que era charmoso andar de caderneta na mão

mas quando ele estava entre pessoas “do meio”
o charme ficava igual latinha de refri aberta na geladeira

e a necessidade de ser diferente boicotava suas inspirações

nada lhe parecia bom
nada lhe servia

e aquele troço ia se debatendo com mais violência

ao andar pela rua, vez ou outra Humberto se sentia observado
logo virava o rosto para o lado e achava alguém em uma sacada olhando para ele;
aquilo sempre acontecia
mas agora o irritava profundamente

qualquer olhar podia levá-lo da miséria à soberba ou do topo à lama

certo dia, intoxicado de raiva, Humberto esbravejou com tudo:
“que m*rda! não aguento mais sustentar essa imagem!”

Maria Isis, sua irmã mais nova que estava justamente fazendo um apoio para uma “boneca” de papel,
arregalou os olhos e viu o sentido da sua obra desaparecer
“qual é o problema de sustentar uma imagem?!”
perguntou ela
aflita

e ali começou a pororoca

possesso pela onda da raiva
Humberto observou aquela menina frágil, absorta em uma atividade
ao seu ver
ridícula

buscou onde lhe daria um murro, se berraria ou diria uma ofensa
não, melhor, lhe responderia em grande estilo
lhe provaria o que é arte
com a soberba que há em citar Platão
desataria seu ódio como uma espada samurai
cortando em dois aquele crânio insolente
que se interpunha entre o dom e a glória

contudo,
o rosto desfigurado do irmão era tão bizarro
mas tão bizarro
que Maria Isis, no auge de seus nove anos de idade,
se viu obrigada a pensar sozinha na questão

era tão legal inventar aquelas pessoas de papel
dar forma, cor e vida a elas
desenhar, recortar e levá-las para onde quer que fosse
a própria Rita que ela estava fazendo iria cruzar os sete jardins atrás da carta enterrada
ahh…
tava na cara que Humberto não sabia do que estava falando

“ai, mano, você nem sabe o que é uma imagem”
sentenciou a menina, pegando a tesoura para aparar um cantinho da boneca

é, de fato, Humberto não sabia explicar o que é uma imagem
ele só sabia sem palavras
daí o jeito foi sair para dar uma volta na cidade
enfurecido

do portão, gritou:
“você nem consegue mexer essas imagens, Maria Isis!”

“o quê?!”
ela queimou de revolta. ia
provar que ele estava errado, ia mesmo.

(continua)