“Talvez essa pessoa se surpreenda e perceba que é uma ótima e saborosa opção”











Ao descobrirmos novos meios e cardápios diversificados para uma alimentação, resolvi entrevistar uma jovem que opta por uma alimentação fora do costume tradicional. Esse texto intui uma nova forma de pensar acerca das nossas necessidades básicas.

Você se considera vegana, vegetariana ou apenas se abstém de carne?

Eu me considero não carnívora. A definição formal seria ovo-lacto vegetariana, porém procuro nem mencionar que sou pois as pessoas normalmente, ao ouvirem a palavra “vegetariana”, já começam a fazer pré-julgamentos e tendem a se conectar com o estereótipo presente no inconsciente coletivo de que pessoas vegetarianas comem só alface ou comida sem graça, “natureba”. O que absolutamente não é verdade.

O que motivou essa nova forma de cardápio?

Foram vários fatores e um processo de aumento de consciência e entendimento até fazer esta escolha. Decidi parar de comer carnes quando percebi que não era saudável, além de desnecessário e de difícil digestão, quando passei a experimentar comidas sem carnes as quais, ao contrário do que se imagina, é muito saborosa, condimentada, nutritiva, variada, cheirosa, gostosa e bonita, e quando compreendi que a criação de animais para fins de alimentação humana é um dos maiores responsáveis pela poluição do planeta e do ar que respiramos, pelo aquecimento global e destruição da camada de ozônio. A indústria pecuária polui mais que todos os veículos do mundo.

Na época nem estava tão atenta à violência animal sofrida e às questões mais éticas, as quais se somaram depois às minhas reflexões, à medida que me aprofundei no assunto.

Como é a reação das pessoas ao perceberem sua alimentação?

Muita gente nem percebe. Já fui a vários eventos e encontros em que entrei e saí e ninguém percebeu nenhuma diferença, porque quase sempre há opções que posso consumir.

Quando percebem, as reações das pessoas variam bastante. Muitas ficam curiosas pra entender melhor como é, outras questionam o porquê da escolha, poucas não entendem ou indagam em tom de cobrança. Mas a pergunta que mais ouço quando descobrem é: “mas então o que é que você come?”, como se as pessoas comessem só carnes (e muitas dessas vezes estou comendo quando perguntam). No início, a maior parte das vezes eu que tinha receio de gerar algum desconforto ou incômodo pela alimentação ser “diferente”, e enfatizava que não precisavam se preocupar que eu me adaptava, mas meus amigos são muito maravilhosos e sempre se esforçam para variar os cardápios. O que acontece é que as opções sem carne ficam tão boas que todos comem e eu quase fico sem.

Quanto tempo faz que adquiriu estes hábitos?

Faz 8 anos que não ingiro carnes de nenhum tipo. Nem frango, nem peixe, nem presunto, nem bacon, que por sinal, também são carnes.

Qual sua relação com a sociedade atual? Percebe algo diferente em relação à empatia?

Toda e qualquer mudança gera desconforto num primeiro momento, até mesmo as escolhas pessoais de outra pessoa. Não há evolução, porém, sem mudança, individual e coletivamente. Percebo que há um movimento mais intenso de pessoas optando por não consumirem mais carnes, chamando a atenção para este tema e gerando reflexões. Longe do ideal, na minha percepção, mas tem-se falado mais nisso, há mais informações disponíveis e maior esforço dos lugares e pessoas em oferecer alternativas alimentares gostosas a quem decide não consumir mais. Isso acaba por normalizar o que antes era diferente, diminuir a resistência e aumentar o apoio, aderência e empatia. Logo, comparado há 8 anos atrás, considero que as pessoas pouco a pouco estão mais empáticas com quem decide tornar-se vegetariano.

Há algum tipo de interação social por adquirir este hábito?

Não sei se compreendi a pergunta, mas não há nenhum tipo de interação específica que preciso ter por ter modificado meu sistema alimentar. Ajo normalmente, como agia antes da mudança.

Como foi/é a reação por parte de sua família?

Foi um processo, em geral, divertido e interessante. Ao receberem a notícia, as pessoas da família inicialmente não levaram muito a sério e acharam que seria algo passageiro. Rolavam alguns deboches e piadinhas também. Mas fui levando na esportiva, com bom humor e sem me estressar muito, e a maioria foi entendendo e respeitando rapidamente. Alguns cansaram de tentar me incomodar, porque viam que não surtia efeito. Em alguns casos isolados, precisei me posicionar mais enfaticamente (mas sempre com educação) quanto a minha decisão e deixar claro que eu respeitava a escolha de cada um de continuar comendo animais mortos, e que, portanto, deveriam respeitar a minha também de não fazê-lo. Mas via de regra foi bem tranquilo e todos perceberam que a resistência inicial era muito mais uma questão cultural que se criou em torno da carne e de hábitos alimentares adquiridos do que em função das poucas adaptações realmente necessárias no cardápio da família. No fim, eles constataram que diversificar as vezes é ótimo!

Você frequenta apenas lugares para vegetarianos e afins?

De forma alguma. Como todos os demais alimentos que todo mundo come, menos carnes, e nenhum lugar tem somente carnes para oferecer.

Por fim, qual mensagem deixar para a sociedade como prova e testemunho dos benefícios de sua alimentação?

Eu poderia listar inúmeros benefícios e razões para alguém deixar de comer carnes, como por exemplo melhora do sono, da pele, da memória, do humor, da vitalidade orgânica e sexual, e da saúde como um todo, porém, além de já existirem milhares de estudos científicos sobre este tema disponíveis na internet com estas e muitas outras informações mais, o meu testemunho e experiência só eu consigo sentir e comprovar. Então, a mensagem que eu deixo às pessoas que se preocupam com sua saúde, com sua expectativa de vida e com o planeta em que elas e suas gerações futuras viverão, é que elas façam a sua própria vivência e reflexão e, assim, possam escolher com mais consciência ao invés de simplesmente aceitar os hábitos alimentares que adquiriu desde criança, quando nem tinha escolha. Sugiro que antes de pré-julgar e nem cogitar a possibilidade de não comer carne, leia sobre, procure informar-se e se permita experimentar ficar um período sem ingerir carnes, ou ao menos diminuir a quantidade e dias de consumo e constatar por si mesmo os resultados desta mudança. Talvez essa pessoa se surpreenda e perceba que é uma ótima e saborosa opção.