Desconsolado











“il me manque”
“QUE?!” rebateu Humberto
“eu disse ‘ele me faz falta’ em francês, Beto” respondeu Joana

era impressionante, parecia que só ela tinha a capacidade
de irritar e fazer charme ao mesmo tempo, pensou Humberto

“quem que te faz falta, hein?”
“mon abat-jour” respondeu ela, com a testa apoiada nos dedos
fingindo ser um problema sério
em seguida, entrou na edícula onde morava
deixando Humberto sem reação, sentado na escadinha da frente

ele tinha acabado de contar sobre a briga estúpida com
sua irmã, sobre sua neura de “ser alguém”,
tentando despejar sua raiva junto com o sol poente, que deixava
um forte tom alaranjado no céu

não demorou muito e Joana voltou com um abajur na mão
e o celular na outra
“ó, escuta essa música, ‘the red desert’. acredita
que o nome do álbum é ‘aporia’?”

pois inacreditável era a habilidade que Joana tinha
para desconcertar alguém. ela não ia dizer NADA depois de
ter ouvido Humberto falar por mais de uma hora?! nada mesmo?

era difícil de admitir, mas,
afinal, a música era uma sábia língua de mudos
traduzindo o que Humberto era incapaz de apreender

pouco depois da letargia, ele viu o abajur aceso ao lado da porta
a compor um cenário despretensioso que parecia
acolhe-los da noite, da sensação de vazio típica
daquela hora

seu corpo queria trincar, como se fosse um casulo.
sem saber o que fazer, ele entregou seu olhar mais dolorido à Joana
em um pedido secreto de resgate

então, antes que ela falasse alguma coisa, o celular
do Humberto tocou: fazia mais de uma hora que os guri
tavam no lago esperando por ele
mal deu um abraço na Joana e já saiu correndo
gritando que mais tarde mandaria uma mensagem
“esse rolê vai dar ruim, ah se vai” sentenciou Joana
certa de que previra o futuro